O papel das startups de educação no Brasil.

Enviada em 31/10/2019

Há menos de duas décadas, a difusão do conhecimento dependia de que estudos fossem compilados em livros, impressos e distribuídos, em um processo demorado e caro, de difícil acesso por pessoas pobres. Naquela época, as volumosas enciclopédias eram artigos de luxo para quem quisesse estudar temas de cunho técnico-científico. Hoje, não há dúvidas de que a 4ª Revolução Industrial democratizou o conhecimento, tornando-o acessível digitalmente para um grande número de pessoas por meio, por exemplo, das “startups” de educação (“edtechs”). Nesse contexto, faz-se preciso debater o papel dessas empresas no Brasil, buscando-se formas de garantir a qualidade do ensino e de evitar que interesses comerciais sobreponham à ética na difusão das informações.

A priori, cabe ressaltar que é difícil avaliar o nível da educação oferecida pelas “edtechs”, que lançam conteúdos livremente na internet. Nesse contexto, dados divulgados em estudo da Universidade de São Paulo estimam que já haja mais de 600 dessas “startups” atuando no Brasil. Entretanto, a qualidade do ensino prestado por essas empresas não é avaliada pelo Estado, como ocorre com as instituições de ensino presencial ou à distância vinculadas oficialmente ao Ministério da Educação.

A posteriori, deve-se considerar que muitas “startups” de educação de acesso gratuito via web são custeadas por empresas privadas. Nesse sentido, levantamento publicado pelo site G1 mostra que cerca de 60% dos fundos de investimento em tecnologia no país têm as “edtechs” como alvo. Nesse aspecto, é flagrante o risco de que interesses econômicos influenciem no tipo de informação veiculada, misturando-se conhecimento com propagandas de produtos, por exemplo. Consoante a essa preocupação, conjugam-se as teorias dos filósofos Immanuel Kant, pensador da educação como forma de conceder autonomia ao cidadão, e Jürgen Habermas, defensor da comunicação honesta e respeitosa entre as pessoas para a construção de conhecimento em uma sociedade ética.

Diante do exposto, para garantir a qualidade do ensino difundido por mídias digitais, urge que as Universidades brasileiras atuem para disponibilizar conhecimento à população, por meio da criação de suas próprias “startups” de educação via web, as quais veiculem gratuitamente conteúdos técnico-científicos e culturais avalizados pelos seus docentes, a fim de que os internautas tenham acesso a conteúdos certificados e livres de interesses comerciais. Como efeito disso, a concorrência com a qualidade de ensino das Universidades fará com que as empresas de educação digital tenham máximo cuidado com a qualidade e fidedignidade dos seus cursos. Desse modo, criar-se-ão fontes de conhecimentos diversos, que atuarão como as novas “enciclopédias”, agora, digitais e disponíveis a um grande número de brasileiros, na internet.