O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 20/10/2019
A obra pré-modernista, do escritor brasileiro Lima Barreto, “O triste fim de Policarpo Quaresma”, faz uma análise da sociedade brasileira da época em um tom quase profético. Em seu romance, o autor aborda o patriotismo exacerbado e idealista do protagonista com suas consequências negativas que o levaram ao seu trágico fim pela própria pátria, a qual jurou devoção. De modo análogo às questões apontadas pela obra, cabe analisar a perspectiva histórica que resultou na formação dos valores patrióticos e a problemática atual que torna esse sentimento algo em extinção.
Convém ressaltar, a priori, que o patriotismo se define como o sentimento de pertencimento à determinada comunidade, bem como a valorização dos traços que formam aquela nação. Nesse sentido, conforme a ilustre obra de Sergio Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”, três matrizes principais contribuíram para a formação da identidade brasileira, sendo elas: europeia, africana e indígena. Por conseguinte, ao longo dos períodos colonial e imperial, o governo do país teve como pauta principal a valorização da cultura europeia em detrimento das demais, o que conduziu à uma hegemonia daquela. Com efeito, em razão da dificuldade de unificar os valores culturais das inúmeras influências presentes na nação, o sentimento de inclusão ficou restrito à determinado grupo da sociedade brasileira. De fato, o protagonista Policarpo Quaresma é considerado louco após sugerir que o tupi-guarani, idioma indígena, fosse reconhecido como língua oficial do Brasil.
Outrossim, o sentimento catártico de insatisfação e decepção com as instituições que compõem o Estado brasileiro, levou à um esvaziamento dos símbolos que validavam a pátria. Dessa forma, após a eclosão de escândalos envolvendo a política brasileira, que culminaram no golpe parlamentar em 2016, o brasileiro encontrou-se diante da ausência de valores cívicos e morais. Com isso, sob a ótica do teórico social Edward Abbey, o patriota deve estar sempre pronto para proteger seu país contra o seu governo. Isto é, a fim de reforçar e exaltar os símbolos e características culturais que formam a nação, é necessário que o povo avance diante da vergonha cívica que paira sobre a nação, sobretudo após os dissabores provenientes da corrupção política.
Diante disso, é primordial o resgate do sentimento patriota na nação. Portanto, cabe ao Ministério da Cultura, em parceria com o Ministério da Educação e com as escolas, trabalharem os valores cívicos e culturais na sociedade, mediante o ensino escolar, o que deverá se realizar com a reintrodução de disciplinas que abarquem o estudo da pátria e da cidadania, com o intuito de reforçar os valores de patriotismo e o sentimento de pertencimento à comunidade. Espera-se, com isso, que a narrativa de Policarpo Quaresma tenha um desfecho positivo para a realidade.