O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 30/10/2019
Há oitenta anos, à partir da música Aquarela do Brasil, Ary Barroso inaugurava o samba-exaltação, gênero que, com certo grau de ufanismo, exaltava as qualidades e a grandiosidade do país. Contudo, hoje, percebe-se a decadência desse senso patriótico, uma vez que a imagem e a identidade da nação são abalados pelas frequentes problemáticas instauradas nos campos social e político. Dessa forma, é preciso discutir como o desincentivo à cultura intensifica esse panorama. Ademais, nota-se a existência de um patriotismo às avessas, calcado na inferioridade.
Em primeiro plano, segundo o filósofo Kierkegaard, “a cultura é o ciclo que o indivíduo percorre para chegar ao conhecimento de si próprio”. Posto isso, é importante destacar o papel ímpar que a autoconsciência da identidade possui, visto que, devido ela ser um produto da sociedade, é somente através dessa herança que se entende as adversidades e os orgulhos que formam o cidadão e como melhorá-lo. No entanto, conforme o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, apenas 10% da população têm pleno acesso às diversas manifestações culturais, por exemplo, cinema, teatro e shows. Logo, de que maneira é possível cobrar de um povo o exercício de tal tarefa, quando, mesmo sendo assegurado na qualidade de um bem público, verifica-se a questão enquanto privilégio de uma minoria.
Outrossim, em meados da década de 1950, o dramaturgo Nelson Rodrigues cria o termo complexo de vira-lata, no qual conjectura “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Desse modo, provoca-se, concomitante a um engrandecimento do estrangeiro, o sentimento de desvalorização de tudo que provém de seu país. Dessarte, à exemplo disso, em 2018, o descaso com o qual foi tratado o incidente no Museu Nacional pela sociedade e pelo Estado, em descompasso com o ultra-alarde gerado, em 2019, pelo incêndio na Catedral de Notre-Dame. Por isso, em nenhum caso deve-se ignorar as ocorrências no cenário mundial, porém menosprezar os símbolos de sua pátria e promover boicotes aos incentivos da cultura são tipos de ataque à própria cidadania.
Portanto, a fim de restaurar o valor patriótico e democrático, o Governo Federal precisa empregar medidas de ampliação da visibilidade e intensificação da importância do patrimônio sociocultural brasileiro. Isso posto, o Ministério da Cidadania deve criar uma campanha de enfoque nacional, no intuito de aumentar a acessibilidade da população, com a utilização das diversas mídias no fomento à adesão ao Vale-Cultura. Além disso, as secretárias de cultura dos municípios tem de instruir, com atrações e práticas locais, em instituições de ensino e comunidades, sobre as composições da identidade do país. Assim, é possível garantir maior dignidade à pátria.