O patriotismo em questão no Brasil

Enviada em 29/10/2019

O autor pré-modernista Lima Barreto, em sua obra “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, retrata a vida de um coronel que era apaixonado pelo Brasil e defendia que a língua tupi deveria ser o idioma oficial do país, tamanho nacionalismo. Contemporaneamente, a conjuntura social brasileira não está consoante ao pensamento de Quaresma, visto que é evidente o complexo de vira-latas – termo padronizado pelo autor Nelson Rodrigues. Assim, esse panorama, é impulsionado pela negligência estatal das demandas populares e à falta de valorização da cultura nacional.

Em primeira análise, é lícito postular, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, em sua tese Modernidade Líquida , a qual encontra-se na época em que a vida social passa a ter como centro a existência do individualismo. Diante disso, ocorre a dissociação entre indivíduo e sociedade, fazendo com que o sujeito não exerça seu importante papel de cidadão. Logo, ao prevalecer o interesse individual em detrimento do coletivo, manifestações semelhantes às Diretas Já- movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas- perdem o seu significado, visto que os indivíduos não se interessam mais em lutar pelo seu país, nem pelo bem estar comum, além de não conhecerem seus deveres e direitos, o que facilita consequências como a manipulação e a corrupção, duas faces trágicas da falta de patriotismo no país.

Outrossim, segundo o sociólogo francês Émile Durkheim, o ser humano é o produto do meio em que vive, sendo a sociedade responsável por nortear sua conduta. Indubitavelmente, a falta de visibilidade e valorização da cultura brasileira em detrimento à estrangeira, torna cada vez mais difícil o sentimento patriota. Nesse sentido, os brasileiros são influenciados, todos os dias, pela cultura do exterior – fenômeno atrelado à globalização-, sendo ensinados desde pequenos a valorizar o que vem de fora, e, sem serem estimulados a consumir a cultura nacional, se torna inevitável. Dessa maneira, a sociedade aprofunda-se num contexto de culto ao estrangeiro, o que torna urgente a superação dessa grave conjuntura.

É imprescindível, portanto, que o Governo Federal, por meio do Ministério Público, promova políticas de combate à corrupção, destinando maiores verbas para operações como a Lava-jato, e estabelecendo maior apoio ao Judiciário, para que assim os indivíduos possam acreditar novamente na democracia. Somado a isso, o Ministério da Cultura, com auxílio dos Governos Estaduais e Municipais, deve ampliar o acesso à cultura brasileira, por meio da criação de um Vale Cultura, de valor simbólico, para toda a população, visando a aumentar a visita aos museus, teatros e o contato com a literatura nacional. Dessa forma, será possível somar esforços aos de Quaresma na construção de uma identidade nacional valorizada.