O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 30/10/2019
É curioso notar que o fomento ao patriotismo no Brasil foi sempre concomitante aos golpes de Estado e momentos de exceção política, como o Estado Novo em de Getúlio Vargas em 1937. Certamente, em sua concepção teórica, o culto à pátria leva à consciência cidadã e à valorização do indivíduo identificado com o país, porém, não é possível separar o atual movimento patriótico de sua origem neoconservadora, que, muitas vezes, propõe o amor cívico apenas como ritual vazio de ação política e prenhe de ódio às diversidades. Portanto, se o melhor efeito do patriotismo é o estímulo à cidadania, é preciso ensinar o real significado dessa prática à população, impedindo uma possível guinada totalitária de concepção antidemocrática.
No cenário político atual, várias medidas foram elaboradas para incentivar o patriotismo nas escolas, como cantar o Hino Nacional ou adorar aos símbolos e brasões das bandeiras. Contudo, esses rituais soam desconexos e vazios, pois carecem de medição pedagógica, além do fato de serem precariamente compreendidos tanto pelos alunos, quanto pelos professores. Ademais, Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”, ressalta como a heterogeneidade étnica pode dificultar um sentimento de identificação do indivíduo com o todo. Isto é, a criança negra é compungida a adorar riquezas das quais não compartilha, situação de desigualdade oriunda de uma elite econômica que prega o patriotismo, mas dirige uma economia extrovertida, dependente de globalizada.
Ainda nesse aspecto, a Sociologia e a História são seguras em alertar que mesmo um culto bem intencionado à pátria pode evoluir para movimentos nacionalistas radicais, os quais tomam projeções nefastas, como ocorreu na Alemanha nazista. É desse modo que, o estadista Börne salienta que " os tiranos do nosso tempo são o maiores pregadores da liberdade", conselho sensato em um período no qual a cidadania é cosmopolita, tolerante e não pode deixar de evoluir só porque imposições anacrônicas de governos populistas demandam.
Assim, cultuar a pátria é útil enquanto ação efetiva dos direitos humanos. Por isso, o Ministério da Educação deve elaborar uma cartilha escrita por líderes da vários segmentos civis, a qual instrua e defina uma política patriótica coerente com a democracia, a ser ensinada nas escolas por professores preparados, a fim de tornar o patriotismo uma pátria cidadã. Cabe às prefeituras municipais realizar atividades lúdicas com a pluralidade de etnias, gêneros e classes visando à troca de experiências sobre o patriotismo pelo fim da polarização, com o desenvolvimento de todos.