O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 05/11/2019
A conclamação do ministro da educação ao registro de imagem de alunos cantando o hino nacional em escolas gerou, com razão, reações negativas em todo o país, o que pode ser observado na imprensa e nas mídias sociais. Ao que tudo indica, tratou-se de tentativa de angariar material audiovisual com intenção propagandística por parte do governo, prevendo inclusive a declamação do slogan da campanha eleitoral do Presidente presidente da República.
O pedido, nos moldes em que foi feito, é descabido, uma vez que constrange a autonomia pedagógica das escolas, além de trazer o risco de ferir o direito de imagem das crianças. Entretanto, deixando de lado a desmedida política o desmedido ato político, é profícuo aproveitar o fato para refletir acerca do sentido geral do costume, cada vez mais deixado de lado, de hastear a bandeira acompanhada da entoação do hino e cantar o hino nacional em ambiente escolar.
Como comparação, uma cena a que quase inevitavelmente somos remetidos é a dos jogadores da seleção de futebol antes de uma partida de mundial, ou ainda, na cerimônia de entrega do prêmio. Há quem se emocione e cante junto, assim como há também os torcedores que fazem troça ao flagrar as imagens dos atletas em descompasso com a letra. De todo modo, não há quem critique a solenidade quando inserida em ocasião esportiva. Mas será esse o único ambiente em que vale celebrar os símbolos nacionais?
Talvez hoje pareça um procedimento burocrático o antigo protocolo de formar diariamente uma fila no pátio e cantar o hino antes de encaminhar as crianças às salas de aula. Por outro lado, não deixa de ser um ritual que demarca que a educação, antes de ser um requisito técnico do mercado global, é parte da formação de valores de cidadania, os quais incluem o respeito à unidade da federação pátria.
Afinal, se cantar o hino em escolas já foi lei instituída por governos tanto de direita quanto de esquerda, isso deve guardar relação com o fato de que a unidade e a soberania do Estado merecem ser relembradas constantemente. Acompanhada de outras medidas da escola que promovam discussões críticas a respeito da história e da atualidade, não faz mal nenhum cobrar, pelo menos em datas comemorativas, que os alunos conheçam saibam de cor o hino nacional e o façam vibrar em uníssono na instituição que os acolhe. Contudo, isso deveria ser feito em caráter de hábito, independente de um fim de exibicionismo político.