O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 04/12/2019
“Imagine que não há países. Não é difícil de se fazer”, cantava John Lennon pela primeira vez em 1971, “Nada pelo que se matar ou morrer”. Em sua admirável e premiadíssima canção, o artista nos convida a imaginar um mundo de paz – um mundo sem motivos para nos dividir, um mundo sem bordas. Muito se discute, no Brasil, sobre o valor do patriotismo, espelhando-se, talvez, no exemplo estadunidense de amor incondicional à bandeira. Este posicionamento foi pregado com vigor aqui durante a Ditadura Militar, mas vem decrescendo continuamente desde o seu fim, e muitos afirmam que devemos retomá-lo. A questão é: precisamos mesmo resgatar uma moralidade praticamente rupestre e tão facilmente extremável?
Primordialmente, o patriotismo é a “evolução” de um sentimento de “nós contra eles”, presente na política humana desde as suas origens, nas sociedades baseadas em chefatura. Certamente, este sentimento, a princípio, foi vital para a sobrevivência e evolução da nossa espécie, haja visto as dificuldades em enfrentar o dia-a-dia nessas comunidades primitivas. No entanto, o patriotismo em si, como sendo um sentimento de amor a uma nação-estado, só surgiu depois, quando começaram a aparecer os Estados propriamente ditos.
Neste sentido, Paul Gomberg, professor de filosofia da Universidade da Califórnia, escreve, em um artigo recente, que os Estados são formados pela exploração por uma classe dominante, e não por um sentimento de cooperação e pertencimento, e afirma, severamente, que “(…) nações-estado não são comunidades, e moralidades patrióticas fundadas no pressuposto de comunidade política são fundadas em absurdo.” Ainda, pode-se destacar o fato de que o patriotismo é um dos princípios de ideologias extremistas que tanto já causaram morte e miséria, como o nazismo e o fascismo.
Em contrapartida, o individualismo que prevalece é, também, indubitavelmente, prejudicial à humanidade. Então, como combater esses valores individualistas? Ora, disseminando uma ideologia verdadeiramente nobre: o altruísmo. Por que pregar o amor à pátria, se podemos pregar o amor ao mundo? Por que incentivar a cooperação junto aos compatriotas, se podemos incentivar a cooperação junto aos outros seres humanos, independente de cor, gênero ou nacionalidade?
Enfim, o Governo Federal deve abandonar seu slogan de “Brasil acima de tudo” e, através do Ministério da Educação, promover o altruísmo como parte fundamental da educação básica. Com o propósito de gerar cidadãos mais conscientes, o Governo deve impulsionar ações sociais nas escolas, para que a criança tenha contato com a humanitarismo desde cedo e o veja como parte crucial de sua moralidade. Assim, um dia, o mundo poderá “viver como um”, como cantava John Lennon.