O patriotismo em questão no Brasil

Enviada em 29/04/2020

Desde a primeira fase do Romantismo, passando por acontecimentos como a Semana da Arte Moderna, artistas plásticos e escritores tentam, de diferentes formas, representar a identidade nacional brasileira. Apesar disso, o sentimento patriótico de pertencimento a um povo não se dá de maneira unânime no Brasil. Essa realidade pode, dentre outros fatores, ser relacionada a uma construção identitária que historicamente privilegia certos grupos étnicos e sociais e, mais recentemente, à crescente polarização política.

Primeiramente, é preciso considerar que, mesmo em um país plural do ponto de vista étnico-cultural, a identidade brasileira foi, por muito tempo construída a partir de uma visão eurocentrista. A figura do bandeirante, por exemplo, presente em monumentos e pinturas e encarada como a de um grande herói nacional, constitui um ponto de vista que privilegia o lado do colonizador, uma vez que esses homens contribuíram também, em grande parte, com o genocídio indígena e com a destruição de quilombos. Assim, essa visão marginaliza povos que também contribuíram grandemente para a formação da identidade histórica e cultural brasileira e desestimula o sentimento patriótico em uma parcela considerável da população, em especial entre seus descendentes.

Ademais, os símbolos nacionais vêm sendo, em especial mais recentemente, apropriados por certos grupos político-partidários. Para exemplificar, é possível citar as manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, por exemplo, nas quais o uniforme da Seleção Brasileira de futebol e a bandeira nacional se tornaram marcas dos grupos organizadores e participantes daqueles protestos, ligados majoritariamente à direita política. Embora as discordâncias sejam fundamentais em uma Democracia, a forte polarização política no Brasil acabou por converter símbolos nacionais em sinônimo de interesses desses grupos específicos e removeu o seu caráter de marcas de uma coesão nacional que visa o bem comum.

Portanto, conclui-se que é preciso transformar a forma como a história nacional e o debate político são vistos no Brasil. Para isso,  o Ministério da Educação deve rever a base curricular de História, de modo a privilegiar também a contribuição do indígena e do negro na historiografia brasileira, bem como a de outras culturas que compõem a identidade nacional. Além disso, o MEC pode criar campanhas sobre a participação política nas escolas por meio de palestras e debates entre os alunos, de maneira a enfatizar o valor da dialética e discordâncias na democracia. Dessa forma, será possível construir uma identidade nacional que represente a todos de maneira justa e que leve cada um, apesar de suas diferenças, a lutar pelo bem comum.