O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 11/08/2020
O livro “A Revolução dos Bichos” de George Orwell é uma sátira social com o objetivo de criticar, entre outras questões, o ato de colocar interesses individuais disfarçados de bem coletivo. Apesar de a ficção retratar a ditadura stalinista do século XX, é possível relacionar o egoísmo citado, também, ao patriotismo evidente no Brasil contemporâneo. Nesse contexto, é observada entre os brasileiros a idolatria ao discurso pouco pragmático de amor à nação, que provoca a alienação diante dos problemas do país e do Estado. Portanto, faz-se necessário pôr em questionamento a legitimidade da manifestação patriota e destacar os efeitos negativos dessa conduta.
O bordão “Ordem e Progresso” carregado pela bandeira nacional é uma expressão resumidora da teoria positivista de Augusto Comte, esta que expõe o amor como ponto inicial para alcançar o conceito de ordem e consequentemente o conceito de progresso. No entanto, é explícita a contradição nacional ao evidenciar a fragmentação social de minorias, uma vez que a ideia de amar a pátria é impraticável para o indivíduo que sofre constante segregação da sociedade. Através dessa análise, portanto, é válido afirmar que falta, por uma significativa parcela dos civis brasileiros, amor e respeito aos seus compatriotas para poder ser fiel ao lema exposto na bandeira.
Além disso, em meio a uma realidade de trocas culturais com outras nações, nota-se ainda o medo da população de precisar se render a costumes diferentes, o que desencadeia a chamada xenofobia. Essa discriminação, assim como todas as outras, possibilita a disseminação de ideais absurdos que ferem os direitos humanos. Portanto, tal fato demonstra que a adoração exacerbada à ideia de pertencer a um determinado território, quando não controlada, pode desencadear um individualismo nocivo às relações dentro do país.
Nesse contexto, para afastar da realidade brasileira a imagem ufanista, é importante efetivar-se uma educação crítica de qualidade, motor de redução da desigualdade social de forma sustentável e com justiça social. Ela deve estar sustentada no conhecimento técnico e científico de excelência, bem como no ideal de cidadania, o que afasta o desrespeito ao outro, quer nacional ou estrangeiro. Tal projeto de qualificação demanda pautas da presidência e do Ministério da Educação, que devem investir, a curto prazo, em cursos EAD de aperfeiçoamento para diretores e professores, que lhes permitam desenvolverem suas capacidades de gestão e teórico-metodológicas; e a médio prazo, em infraestrutura escolar, que ofereça aporte para a formação deles e dos alunos. Dessarte, prova-se o amor à pátria, com políticas públicas promotoras do crescimento social e econômico do país, concomitantemente.