O patriotismo em questão no Brasil
Enviada em 14/08/2020
No início do século XIX, Gonçalves Dias lançava o poema “Canção do Exílio”, no qual faz referência ao Brasil como sendo superior ao local onde estava, ou seja, à Europa. Esse tipo de discurso nacio-nalista do autor, ainda hoje, ecoa na terra que “tem palmeiras onde canta o sabiá”, quando se observam falas como “Brasil acima de tudo”, contrapondo ideais intitulados patriotas. Dessa forma, o patriotismo do brasileiro contemporâneo, ao contrário do que deveria ser, é segregador e intolerante. Por isso, é válido analisar o comportamento do brasileiro patriota contemporâneo, bem como seu real comportamento em relação à sua “pátria amada”.
Primeiramente, é fundamental entender que o brasileiro que se autointitula patriota, muitas vezes tem, na realidade, comportamento nacionalista, uma vez que, nesse falso discurso patriota, entre outras questões, há uma certa intolerância em relação a outros povos e até mesmo a grupos de brasileiros contrários a determinadas ideologias. Esse sentimento de patriota, que tem sido estimulado a uma população culturalmente sem ideal de pertencimento, tem gerado cada vez mais intolerância e segre-gação. Segundo o IBGE, cerca de 11 milhões de brasileiros vivem em aglomerados subnormais, fave-las, onde em maior parte sequer há a presença do Estado. Dessa maneira, não tem como cobrar a sen-sação de amor à pátria por esse vasto grupo, já que grande parte sequer tem alimento, acesso à edu-cação, água encanada ou lazer, mesmo que tudo isso seja garantido pela Constituição Federal. Assim, o tal patriotismo começa a existir, também, quando se houver, principalmente, maior equidade social.
Convém pontuar, ainda, que o Brasil foi historicamente desenvolvido sem haver qualquer ideal de pertencimento ou motivo para tal, mesmo que romantizado por Pedro Américo, na obra “Independência ou Morte”. Isso porque o país se tornou independente sob comando do próprio colonizador, e ficou sob seu controle até o final do século XIX, quando houve a Proclamação da República. Ainda assim, infelizmente, o país teve políticas segregacionistas, intolerantes e autoritárias que fez - e faz - muitas pessoas quererem sair do país, em busca de melhores oportunidades, melhor qualidade de vida e, consequentemente, maior ideal de pertencimento.
Nota-se, então, que a sociedade brasileira, diante de sua formação opressora, não teve fomento para criar um real amor à pátria, e desenvolver o patriotismo. Portanto, é fundamental que o Estado, finalmente, dê motivos para que o brasileiro ame sua terra, através de políticas que visem a erradicação da evasão escolar, do desmatamento, da fome, de moradias em situações precárias, da saúde precária e de vários outros problemas que acometem a maior parte da população brasileira, a fim de que se possa sentir pertencente a um local apropriado a se viver, onde se desfrute, finalmente, tais primores.