O patriotismo em questão no Brasil

Enviada em 30/09/2020

Para se falar de patriotismo no caso brasileiro, Lima Barreto tem excelência para retratar o maior patriota das terras tupiniquins, retratado por Policarpio em Triste Fim de Policarpio Quaresma. Como o próprio título sugere, mesmo com sua paixão pelo Brasil, é morto como traidor após desafiar uma das maiores instituições do século XX, o exército. Essa figura de amar intensamente seu país e por ele ser traído é a imagem máxima de como a população brasileira sente em relação à pátria. Muito desse relacionamento desgastado tem raízes mais profundas do que poderia ser observado superficialmente, e a forma de desfazer esse desalento é uma total reestruturação de convívio entre cidadão e nação.

Em princípio, a Independência do Brasil foi algo totalmente burocrático, diferente da imagem heroica pintada por Pedro Américo. Logo de cara já existia uma distância entre a população e seu agora país autônomo. A notícia da emancipação de Portugal demorou a chegar e por muitos foi recebida com indiferença, afinal, a situação permanecia a mesma para a maioria marginalizada. A participação política, em teoria, aumentaria após a instauração da República, ideia esta derruba com a atuação corruptiva dos candidatos, com voto de cabresto e apadrinhamento. O voto universal no governo Vargas, até então uma conquista, posteriormente foi obsoleto com um seguimento extenso de governos ditatoriais.

Portanto, a carga histórica influencia diretamente o comportamento apático no qual nos encontramos hoje. Esse vazio de referencial patriótico é terreno fértil para a proliferação de discursos nacionalistas, tal como ocorreu na Alemanha no momento entre guerras, originando o nazismo, o qual corresponde a uma doutrina ultra nacionalista em sua priori. Um país com a população sofrendo a crise de uma Guerra Mundial, sem expectativas após ser uma das nações derrotadas foi a verdadeira razão para o fortalecimento do discurso do Hitler. Apesar de se tratar de um caso europeu, existe uma indiscutível semelhança com o Brasil atual, passando por uma crise econômica e também política depois de se deparar com seu segundo Impeachment em toda a história.

Dessa maneira, a gravidade da situação antipatriota não deve ser ignorada, porém sim compreendida de forma ampla, por não de tratar de um problema inédito e sim recorrente. Fomentar o verdadeiro patriotismo e instaurá-lo no ideal brasileiro é necessário e para isto a educação é uma resposta, uma vez que muito dos valores, além da instituição familiar, é transmitida pela escola. Sem falsos símbolos, como a pintura de Pedro Américo, mas com um tom popular e mais íntimo dos cidadãos, como foi Marielle Franco, exaltando as conquistas e revoltas populares. Assim, expor que o Brasil não é distante e indiferente, se a própria população não for.