O patriotismo em questão no Brasil

Enviada em 29/09/2020

Quando Caetano Veloso e Gilberto Gil subiram ao palco tocando guitarras elétricas no final dos anos 1960, foram alvos de pesadas críticas por parte de grandes nomes da música popular brasileira. O instrumento era visto como um símbolo da cultura estadunidense, e usá-lo era sinônimo de renegar o que o Brasil tinha a oferecer em prol do estrangeiro. Gil e Caetano, entretanto, como propulsores do movimento Tropicalista, defendiam a ideia modernista do Manifesto Antropofágico: digerir influências externas e regurgitá-las depois de mescladas com a cultura nacional. O episódio continua relevante na contemporaneidade brasileira, visto que, como país colonizado e miscigenado, o Brasil vive em constante busca por sua verdadeira identidade cultural. É indubitável que os extremos, tanto render-se à elementos exportados, quanto isolar-se dentro de uma bolha nacional, não são exemplos de um patriotismo saudável.

Em primeiro lugar, é natural que, em um país que passou por mais de trezentos anos de colonização europeia e posterior influencia americana, exista uma hipervalorização do estrangeiro. O fenômeno é explicado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o conceito do arbitrário cultural dominante, postulando que em uma sociedade onde há hierarquias e diferenças de poder, a cultura da elite ou do povo dominante é tida como superior, correta e inquestionável. Assim, a população passa a preferir filmes, músicas, roupas e elementos culturais vindos de fora, não criando laços com a nação a que pertence e tornando mais difícil o exercício da cidadania, visto que o indivíduo não se sente parte de um todo.

Entretanto, a reação de fechar-se para influências externas é igualmente danosa. Exemplos históricos com consequências desastrosas da exacerbação do patriotismo, como o fascismo de Mussolini, mostram a importância de valorizar a cultura nacional ao mesmo tempo que se compreende e interage com o que vem de fora.  Na era da informação, avanços científicos, tecnológicos e culturais dependem da cooperação entre diferentes povos e nações.

Portanto, é mister que o Estado tome medidas para resolver o impasse. Para que a população brasileira tenha respeito e apreço pela cultura nacional sem tornar-se xenofóbica e intolerante, cabe ao Ministério de Educação e Cultura (MEC), por meio de mudanças na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tornar obrigatórias discussões a respeito de história comparada entre o Brasil e outras nações. Somente assim, ao entender como o desenvolvimento sociocultural no país se deu em relação a outros lugares do mundo, será possível criar um sentimento de patriotismo saudável entre os cidadãos, como aquele pregado pelos Tropicalistas, promovendo o senso de comunidade e ampliando a cidadania.