O poder de manipulação das mídias
Enviada em 24/10/2021
“Use, seja, ouça, diga”. Essa sequência de verbos no imperativo faz parte de versos da canção “Admirável Chip Novo”, de autoria da cantora Pitty, em que é debatida a padronização de hábitos e comportamentos dos indivíduos imposta pelos meios de comunicação em massa. Fora das cifras, a realidade da sociedade contemporânea - infelizmente - não é diferente quando se trata do poder de manipulação das mídias no corpo social. Dessa forma, faz-se necessário analisar a atuação dessa coerção nos âmbitos socioeconômicos e políticos.
É válido evidenciar, de início, a manipulação presente no aspecto socioeconômico da atualidade, uma vez que as mídias têm sido utilizadas como principal meio de propaganda de serviços e produtos. Isso porque os meios de comunicação de massa, segundo as teorias da Escola de Frankfurt, são dominados propriedades de algumas empresas, as quais possuem interesse em obter lucro e manter a ordem econômica vigente. Ou seja, as mídias objetivam a publicidade comercial a fim da ascensão econômica das grandes empresas em detrimento do bem-estar econômico da população, principalmente, a de baixa renda. Esse fenômeno acontece por meio de um número compulsório de propagandas - munidas de apelação visual e afetiva. Dessa forma, infere-se que essa atitude se encaixa na “asfixia”, teorizada pelo filósofo Franco Berardi, a qual consiste no comércio e na tecnologia que “sufocam” os indivíduos.
Outrossim, é de extrema importância analisar os entraves políticos do poder de coerção das mídias, tendo em vista que a mídia, por meio da divulgação de fatos e dados, auxilia a população na construção de suas opiniões e ideologias. Nesse sentido, pressupõe-se que os meios de comunicação em massa, quando utilizados de forma indiscriminada, ao distorcer fatos e opiniões a favor de interesses particulares de determinados grupos, age de forma tóxica e “asfixiante” para com o corpo social, deturpando seus ideais - e, consequentemente, a política nacional. Logo, é possível afirmar que esse fenômeno contraria a máxima do sociólogo Pierre Bourdieu: “Aquilo que foi criado para se tornar instrumento de democracia direta não deve ser convertido em meio de opressão simbólica”.
À luz dessas considerações, é nítida a relação do poder de manipulação das mídias nas esferas socioeconômicas e políticas da sociedade. Portanto, urge que o Ministério da Educação, magnânimo órgão educacional do país, reforme a grade curricular, por meio da inserção da disciplina de “Inteligência Tecnosocial”, a qual discutiria a relação dos discentes com os fenômenos que incorporam as tecnologias comunicacionais, como a mídia e os meios de comunicação em massa, e seus aspectos sociais, a fim de promover a criticidade e o discernimento a respeito desses assuntos à população. Assim, os indivíduos não seguiriam as ordens midiáticas de usar, ser, ouvir e dizer, como entoou Pitty.