O poder de manipulação das mídias

Enviada em 25/10/2021

No episódio de estréia da série distópica “Black Mirror”, da plataforma Netflix, uma princesa britânica é sequestrada e, em troca de sua liberdade, o sequestrador exige do primeiro-ministro inglês que ele tenha relações sexuais com um porco, transmitida ao vivo nas mídias. Vendo sua aprovação pública cair, o político decide cometer o ato que, de acordo com o sequestrador, tinha como propósito demonstrar a obsessão das pessoas com a mídia. Para além da ficção, o poder de manipulação das mídias passa por questões que vão desde a persuasão dos sujeitos mais vulneráveis até às regras ditadas por uma “superestrutura” que define quais os mecanismos de influência comunicativa.

Primeiramente, é preciso entender que uma sociedade mais instruída é menos vulnerável ao poder de manipulação da mídia. Isto é, de acordo com o educador brasileiro Paulo Freire, a autonomia do sujeito é construída na experiência de inúmeras decisões tomadas e na educação ativa que, em oposição ao modelo que apenas deposita informações no educando, convida o ser a pensar criticamente. Ou seja, um corpo social que aprende a refletir e a analisar se torna menos suscetível à influência midiática, principalmente em um contexto social capitalista que leva os cidadãos à consumir desenfreadamente. Tal questão é exemplificada nas crianças e adolescentes, que ainda estão aprendendo a discernir os conteúdos e efeitos das mensagens midiáticas e, por isso, não absorvem de maneira crítica o que lhes é passado, resultando em modos de agir, de consumir e de se vestir massificados.

Ademais, o poder “por trás” dos meios de comunicação dita regras e comportamentos a serem seguidos por uma massa, como já dita anteriormente, acrítica. Tais mecanismos de influência dessa “superestrutura” que determinam a personalidade do sujeito, são ditados pela chamada “Indústria Cultural”, a qual, de acordo com os pensadores da Escola de Frankfurt, é responsável pela massificação do conhecimento, da arte e da cultura. Dentro dessa lógica, a mídia exerce papel fundamental na manipulação dessa engrenagem de dominação política, econômica, cultural e psicológica da sociedade contemporânea, de forma a, por exemplo, exibir entretenimento “reproduzido em série” enquanto cultura, para atender à demandas econômicas de grupos empresariais.

Assim, para que o poder de manipulação das mídias seja atenuado, é necessário que as instituições de ensino fomentem o pensamento crítico dos educandos, por meio do estímulo à debates antagônicos que levem os estudantes à pesquisar e se informar sobre os mais diversos assuntos, como política, cultura e economia, para que a autonomia freireana seja construída. Além disso, é importante que a sociedade civil, unida às escolas e às universidades, promova palestras educativas nas comunidades, explicitando as contradições do capitalismo em busca de uma sociedade menos massificada.