O reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil

Enviada em 06/09/2019

Após a eliminação no Brasil do mosquito vetor da febre amarela (Aedes aegypti), na década de 1950, houve a reintrodução do inseto uma década depois, a qual ocasionou um surto do vírus a nível urbano. Entretanto, contemporaneamente, observa-se que casos de reaparecimento de enfermidades já controladas, fazem-se cada vez mais comuns na realidade brasileira. Com efeito, a inoperância estatal na promoção de infraestrutura de combate às doenças e a omissão social em relação ao cuidado com a saúde, tornam-se entraves para a erradicação de moléstias.

Em primeira análise, nota-se a inércia do Estado no fomento à contração de profissionais atuantes no setor público de saúde. Segundo a Carta Magna de 1988, em seu Artigo 6°, todo cidadão tem o direito à saúde de qualidade. Contudo, a prática deturpa a teoria, visto que a malha pública brasileira carece de investimentos na contratação de agentes comunitários de saúde e de endemias, os quais ficam imbuídos de oferecer vacinas, bem como a eliminação de vetores transmissores de enfermidades. Em decorrência disso, o número de pessoas acometidas por doenças ditas erradicadas volta a reaparecer, como ocorreu nos casos de sarampo em 2018, por exemplo, após o País ter adquirido o selo de erradicação da patologia, em 2016, pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Por outro ângulo, percebe-se o descuido da sociedade no que tange à questão da importância da vacinação. De acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua Teoria do Habitus, o corpo social possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos. Sob esse viés, verifica-se a aplicação desse princípio no contexto brasileiro, uma vez que a coletividade, ao longo do tempo, mostra-se alienada quanto às “fake news” noticiadas na mídia sobre vacinas, o que leva a uma baixa adesão da população a tal prevenção e, consequentemente, a uma maior circulação nacional de doenças do “passado”, como poliomielite e sarampo. Destarte, medidas enérgicas são necessárias para se alterar essa “padronização” prevista por Bourdieu.

Nesse cenário, é vital a mudança do quadro alarmante de ressurgimento de doenças erradicadas no Brasil. Logo, o Tribunal de Contas da União, com urgência, deve destinar verbas que, por intermédio do Ministério da Saúde, serão revertidas na contratação de reforço do efetivo de agentes de saúde e de endemias, para o trabalho de vigilância epidemiológica de novas possíveis epidemias, além do reforço vacinal da população, com o intuito de oferecer qualidade de vida aos habitantes, no fito de garantir o que é previsto em Lei. Ao mesmo tempo, cabe às Prefeituras, aliadas às ONGs, a realização de debates e mesas-redondas, em escolas e praças, com vistas a alertar sobre as vantagens de se aderir à imunização. Assim, os surtos infecciosos de outrora ficariam apenas no passado.