O reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil

Enviada em 28/02/2020

A série “Escolhido”, da plataforma digital Netflix, relata a história de Lúcia, uma médica recém-formada que deseja vacinar uma comunidade remota e impedir a manifestação de patologias nesse local, mas enfrenta obstáculos ao deparar-se com pessoas conservadoras que recusam fortemente o procedimento. Fora da ficção, esse cenário suscetível à retomada de doenças erradicadas também está presente no cotidiano brasileiro e tornou-se um sério problema, visto que – seja pela negligência popular, ora pela ineficiência estatal – desequilibra o sistema de saúde e compromete o bem-estar de todos os grupos sociais.

A princípio, cabe analisar o papel negligente da população sob a visão da filósofa alemã Hannah Arendt. Segundo a autora, a sociedade sustenta práticas deploráveis simplesmente por não analisar a repercussão desses atos. Analogamente, na medida em que grande parte dos cidadãos não objetivam conhecer a base científica das vacinações e ignoram o comprometimento com os métodos de prevenção, essas pessoas tornam a imunização desvalorizada e permitem o surgimento de doenças que permaneciam ausentes no país. Por consequência, a incompreensão social sobre as patologias fortalece grupos antivacinação e amplia surtos virais que sobrecarregam a estrutura pública de saúde.

Ademais, além da população, a atuação estatal ineficiente também corrobora na problemática e convém ser contestada sob a perspectiva do filósofo britânico John Locke. Segundo o autor, a sociedade, em seu estado de natureza, possui o direito à vida, à saúde e à liberdade, que devem ser preservados pelo governo. Dessa forma, o atual poder público contradiz esse pensamento ao promover poucos projetos voltados para a imunização coletiva, os quais, frequentemente, são realizados em camadas populares restritas e não conseguem estabelecer a cobertura vacinal em locais com baixo saneamento urbano. Logo, observa-se a retomada de doenças em diversos setores sociais, uma vez que, segundo a Organização Mundial da Saúde, 20 milhões de crianças não são vacinadas no Brasil anualmente.

Diante disso, torna-se evidente que medidas devem ser tomadas. Para isso, o Ministério da Saúde, em parceria com agências publicitárias, deve criar projetos para combater o reaparecimento de doenças, de modo a divulgar vídeos nas redes sociais, com explicações pedagógicas e de caráter científico, que possam expor os danos provocados pelas patologias e incentivar o ato de prevenção. Dessa maneira, será possível construir uma sociedade compromissada no assunto e garantir o controle de enfermidades pelo país. Além disso, o governo, por meio de verbas públicas, deve investir em campanhas de imunização, sobretudo em locais sem saneamento, a fim de assegurar a proteção das camadas sociais e impedir ambientes propícios para a manifestação de doenças, assim como ocorreu na série “Escolhido”.