O reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil

Enviada em 04/08/2020

Albert Camus, em sua obra “A Peste”, retrata uma cidade que se isola do mundo após ser assolada por uma aterrorizante epidemia. Contemporaneamente, de modo análogo, os brasileiros, expostos à precariedade do sistema de saúde, vivenciam um cenário de medo e angústia com a possibilidade do reaparecimento de doenças erradicadas. Com efeito, esse complexo panorama instaura-se a partir da compactuação social e da extrema ineficiência estatal em promover diversos tipos de políticas públicas.

Em uma primeira análise, cabe refletir a conivência da sociedade quanto à rejeição do uso da vacina no combate ao retorno de tais doenças. A gênese dessa percepção encontra-se na grave escassez de informação científica no cotidiano brasileiro, o que permite a intensa disseminação de campanhas antivacinação em ambientes online, cujo conteúdo aborda informações distorcidas sobre essas substâncias e desestimula a imunização. Nesse sentido, o desconhecimento científico social e o consequente reaparecimento de patologias erradicadas materializam antagonicamente a premissa de Jean-Jacques Rousseau, na medida em que o filósofo afirma que a tomada de consciência acerca da gravidade de um quadro problemático é o passo fundamental para sua superação. Desse modo,a carência de cientificismo na população fomenta o ressurgimento de inúmeras doenças no país.

Em segundo plano,faz-se necessário refletir a estreita correlação entre a má gestão governamental e o reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil. Esse fato decorre do esfacelamento ético do Poder Público, que secundariza historicamente as pastas da Saúde Pública, em detrimento da satisfação de interesses subjetivos que perpetuem essa classe política no poder, o que inviabiliza o amplo investimento na garantia do não ressurgimento dessas enfermidades. Esse padrão de gestão, ao falhar em cumprir prerrogativas que lhe são inerentes, contraria as proposições de Montesquieu, em “O Espírito das Leis”, as quais destacam a razão de ser do Estado como relacionada à necessidade de se satisfazer as demandas de uma determinada realidade social. Dessa forma,o cultural fisiologismo das agendas estatais é responsável pelo retorno de distúrbios outrora eliminados.

Portanto, a desinformação social e o despreparo estatal consubstancim o reaparecimento de doenças erradicadas no território. À vista disso, o Ministério  da Saúde deve promover políticas públicas de estímulo à imunização contra tais enfermidades, por meio do aumento do quantitativo de propagandas sobre as variadas campanhas de vacinação que ocorrem durante o ano, com a criação de uma seção nas plataformas digitais do governo destinada a informar a população, de modo acessível, sobre os fundamentos científicos da vacinação, a fim de conter a rejeição às vacinas. Dessa maneira, construir-se-á uma nação livre do ressurgimento de pestes devastadoras como a descrita por Camus.