O reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil

Enviada em 15/08/2020

Na mitologia grega, Prometeu foi acorrentado a rochedos de sofrimento sob a pena de ter seu fígado devorado diariamente por um abutre. Enquanto o órgão se restituía, a ave já o consumia novamente. Fora da ficção, o mito adapta-se à temática do ressurgimento de doenças erradicadas no Brasil. Nesse panorama, é fundamental a conscientização popular acerca da importância da prevenção de variadas enfermidades. Todavia, a recente imposição de dúvidas sobre o poder da vacinação e o descuido por parte da sociedade civil no tocante à realização da mesma – na maioria dos casos disponibilizada gratuitamente pelo SUS – são aspectos que contribuem para o retorno de moléstias.

A priori, cabe mencionar o pensamento do filósofo David Hume, que afirma que as ideias derivam unicamente das impressões – de modo a destronar a razão e, com isso, abalar bases racionalistas da Ciência. À luz disso, a confirmação do método hipotético-dedutivo demonstra que há, na comunidade científica, a permissão para questionamentos e refutações. No entanto, há conhecimentos que, por mais que devam ser contestados a fim de não serem transformados em dogmas - como teme o utilitarista John Stuart Mill -, devem ser provados, empiricamente, a todos. Nesse espectro, a eficácia das vacinas é algo facilmente comprovado, uma vez que, por meio delas, milhões de mortes são evitadas anualmente - o que aniquila argumentos do movimento antivacina.

A posteriori, consoante a Constituição Cidadã de 1988, é dever do Estado garantir a proteção dos cidadãos frente à epidemias. Contudo, mesmo com uma atuação estatal adequada nesse aspecto, caso as pessoas não discernirem a importância de cuidados básicos - como levar os filhos para serem vacinados -, o problema há de persistir. Conforme dados de uma pesquisa realizada pela Faculdade São Leopoldo Mandic, 41% dos pais alegam falta de confiança nas vacinas. Como se não bastasse, fatores como a falta de saneamento básico e a demora no atendimento aos pacientes demonstram uma ineficiência governamental que soma-se às demais questões e agrava o quadro.

Logo, cabe ao Ministério da Saúde criar canais de atendimento especializados - via internet – com a finalidade de os indivíduos tirarem dúvidas sobre a prevenção de doenças. Isso poderá ser realizado mediante a contratação de mais profissionais de saúde – já que a profilaxia economiza recursos financeiros, os quais poderão ser reinvestidos, de forma a criar um ciclo preventivo. Dessa maneira, poder-se-á combater as fake news e, do mesmo modo, mitigar a negligência populacional. Por conseguinte, através do saudável fígado da informação será possível livrar os “Prometeus” hodiernos do abutre da ignorância – o qual se espalha velozmente com a globalização. Desse jeito, interromper-se-á a reincidência de doenças erradicadas – que assemelha-se à diária e horrorosa refeição da ave.