O reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil

Enviada em 10/08/2020

O livro “O Mundo Assombrado por Demônios: A Ciência como uma Vela no Escuro”, do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, coloca o pensamento científico moderno como a luz que tem o potencial de iluminar a escuridão da desinformação, obscurantismo e das pseudociências que ainda afetam o modo de pensar na contemporaneidade. Como consequência direta da persistência desses males na mentalidade da população, está o reaparecimento de doenças previamente erradicadas no Brasil, devido principalmente ao enfraquecimento da memória coletiva a respeito de grandes epidemias do passado, além da propagação de informações falsas por grupos anticientificistas.

Em primeiro lugar, é evidente que a maior parte da população brasileira nunca teve que conviver com os grandes surtos de doenças do passado. Jovens, de maneira geral, não presenciaram as milhares de mortes pelo vírus da AIDS na década de 1980, não sofreram com as sequelas da poliomielite ou com as marcas do sarampo, visto que todas elas encontram-se controladas ou mesmo erradicadas há anos. Segundo o médico Drauzio Varella, não existe existe mais uma memória coletiva sobre o que é lidar com esses males, fazendo com que o nível de cuidado decaia e torne a sociedade mais uma vez vulnerável a eles.

Além do exposto, existe ainda outro agravante: o compartilhamento de “fake news” que colocam em descrédito o conhecimento científico. Por exemplo, décadas após erradicar completamente o sarampo, os Estados Unidos voltaram a registrar casos da doença, e estudos mostram que o aumento tem relação com os grupos antivacinação do país, que acreditam na falsa ideia de que vacinas causam autismo e deixam de ministrá-las a seus filhos. As milhares de informações mentirosas compartilhadas diariamente entre usuários da internet leva, então, à adoção de práticas questionáveis com desastrosas consequências para a saúde pública.

Portanto, é mister que o Estado tome medidas para amenizar o impasse. Visto que o ressurgimento de doenças antes controladas é consequência primariamente da desinformação e falta de conhecimento científico por parte da população, cabe ao Ministério da Saúde, por meio de campanhas publicitárias, educar a sociedade a respeito da gravidade do problema e transmitir dados de confiança sobre as medidas profiláticas e terapêuticas a serem tomadas em cada caso. Somente assim, por meio do reavivamento da memória histórica dessas doenças, bem como da propagação de uma consciência científica, será possível alcançar o potencial da ciência moderna previsto por Sagan, poupando vidas e melhorando a saúde do Brasil.