O reaparecimento de doenças erradicadas no Brasil

Enviada em 16/08/2020

Em 1904, no Rio de Janeiro, houve a Revolta da Vacina, onde a falta de informação e comunicação entre a população e o Estado gerou receio e resistência à essa forma de imunização. Apesar do avanço no conhecimento público sobre a importância da vacina, grupos anti-vacinação vêm ganhando cada vez mais força, por meio de notícias falsas divulgadas em mídia digitais, com intuito de alertar sobre os “malefícios da vacina”, induzindo cada vez menos pessoas aos postos de vacinação. Dessa forma, essa visão da sociedade, alinhado à um Estado que não prioriza políticas públicas de informação e prevenção básica, torna o cenário favorável ao reaparecimento de doenças antes erradicadas no Brasil. Em primeira análise, sob a ótica de Carl Sagan, a difusão do conhecimento científico é uma questão de sobrevivência da própria democracia. No Brasil, entretanto, o aumento significativo no número de casos de enfermidades já controladas no país evidencia um cenário baseado na divulgação de falsas notícias acerca da credibilidade do âmbito científico. Esse aumento tem como impulsionador o movimento anti-vacinação, que por meio de informações falsas, sem qualquer base científica, associa o uso da vacina com o desenvolvimento de transtornos, como o autismo. Assim, diante da disseminação de notícias falsas, parte da população acaba por ser induzida a evitar, por medo ou desconfiança, essa forma de imunização.

Na Constituição Federal de 1988, o Art-196, prevê a saúde como direito de todos e dever do Estado. Entretanto, há, no Brasil, milhares de grupos sociais em vulnerabilidade socioeconômica, os quais vivem em locais onde os investimentos à saúde são negligenciados, dificultando o acesso a recursos de higiene básica. Assim, consequentemente, há o favorecimento da disseminação de doenças que não possuem vacina, mas que podem ser prevenidas por meio de saneamento. Outrossim, vale ressaltar a insuficiência nos investimentos estatais destinados a campanhas informativas sobre a importância da prevenção por vacinação, o que torna propício o aumento da influência de movimentos anti-vacina.

Diante do exposto, portanto, são necessárias medidas que intervenham no quadro. Assim, compete ao Ministério da Saúde, em conjunto com as Secretárias Estaduais de Saúde, por meio de verbas governamentais, investir em campanhas, em mídia nacional e local, com divulgação positiva, que apresente a importância da imunização, com o objetivo de informar a população sobre os malefícios e riscos da não vacinação, além de investir em programas de saneamento básico para as comunidades mais afetadas pela falta desse recurso. Destarte, além de fortalecer o diálogo entre o âmbito social e estatal, tornando o cenário mais democrático e distante dos motivos que levaram à Revolta da Vacina, será possível controlar a disseminação de falsas informações e de doenças que já foram erradicadas.