O trabalho escravo no Brasil contemporâneo

Enviada em 20/09/2020

Em um sistema democrático é anacrônico o fato do trabalho escravo ainda ser um problema, em especial quando esse se encontra em uma das dez maiores economias mundias, como o Brasil. Entretanto, a existência do racismo estrutural, afetado por uma segregação socioeconômica, resultante de uma intensa concentração de renda, atesta a existência desse paradoxo, fruto de uma amarga herança colonial e escravocrata.

O que possibilita a perpetuação de tais valores são as diversas roupagens que o etnocentrismo apresentou no decorrer da história brasileira, passando pela superioridade branca no período colonial até a idílica meritocracia sustentada pela elite. Essa ideologia, tendenciosamente deturpada, possibilita a existência de um sistema calcado pela exploração da classe operária, que é agravada de acordo com a vulnerabilidade do trabalhador em questão. Os casos mais explícitos costumam acontecer via acordos de trabalhos informais, que isentam o empregador de seguir a constituição trabalhista. Nessas condições, o funcionário costuma ser exposto à longas e extenuantes jornadas de trabalho, marcadas por baixa, ou nenhuma, remuneração, e constante ameaças e punições, algumas de caráter físico.

Um dos exemplos mais conhecidos são o dos bolivianos que trabalhavam em condições análogas à escravidão nas linhas de confecção de uma fornecedora das lojas Zara, que curiosamente trabalha com indumentárias de luxo. Contudo, esses regimes compulsórios costumam se estabelecer de forma sutil em regiões remotas, afastadas das grandes metrópoles, abrangendo diversos setores, como o agronegócio, mineração, e práticas ilegais relacionadas ao tráfico de drogas e à prostituição. Dentro dessa conjuntura, os mais afetados possuem perfis similares, são pobres, com baixa escolarização, e predominantemente negros e pardos, o que remete a citada herança escravista.

Por se apresentar em diversas maneiras e ser sustentado por raízes culturais, o trabalho escravo precisa ser combatido de modo multidimensional, com orientação e foco na educação, com a execução de palestras, eventos e cursos sobre educação política e financeira, procurando conscientizar o indivíduo sobre seus direitos trabalhistas. Para isso, parcerias entre os núcleos de ensinos médio e superior com o apoio do Ministério da Educação são fundamentais, priorizando as periferias e comunidades rurais, onde a informalidade e a baixa escolaridade são mais prevalentes. Em casos de imprudência e infração por parte do empregador, punições severas devem ser aplicadas pela justiça do trabalho por meio de constantes fiscalizações, essas divulgadas nos portais de transparência do governo. Com tais iniciativas, a escravidão finalmente se tornará uma memória, constituída de um doloroso aprendizado sobre a plenitude da prática democrática no Brasil.