O trabalho escravo no Brasil contemporâneo
Enviada em 20/11/2020
Medo. Insegurança. Dor. Essas são algumas palavras-chave que caracterizam a questão do trabalho escravo no Brasil contemporâneo, uma vez que essa problemática afeta milhares de pessoas e segue sem alcançar o apelo necessário para ser resolvida. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, em virtude do legado histórico, bem como pelo receio em denunciar.
A princípio, a falta de um melhor entendimento histórico sobre o tema caracteriza-se como um complexo dificultador. Nessa perspectiva, de acordo com o antropólogo Claude Lévi-Strauss, só é possível interpretar adequadamente a conjuntura social moderna por meio do entendimento dos eventos históricos. Nesse sentido, o trabalho análogo à escravidão, mesmo que fortemente presentes no século XXI, apresenta raízes intrínsecas ao passado colonial brasileiro, que sempre se valeu desse tipo de trabalho como mão de obra predominante. Assim, parafraseando o cantor Cazuza, o futuro repete o passado.
Além disso, outra dificuldade enfrentada é a questão do receio em denunciar. Sob essa lógica, o imperativo categórico, teorizada pelo filósofo Kant, preconiza que o indivíduo deve agir apenas segundo a máxima que gostaria de ver transformada em lei universal. No entanto, no que tange à questão do trabalho escravo, há uma lacuna no dever moral quanto ao exercício da denúncia. Evidencia-se, portanto, que as campanhas de incentivo à denúncia anônima não estão sendo implementadas de maneira eficiente ao combate desse crime contra os direitos humanos.
Logo, medidas estratégicas são necessárias para alterar esse cenário. Faz-se imperativo, portanto, que o Ministério da Justiça, em parceria com as mídias de grande acesso, divulgue amplamente os canais de denúncia, tanto via telefone, quanto online, por meio de publicações nas redes sociais e transmissões ao vivo, esclarecendo a importância das denúncias e a possibilidade de fazê-la anonimamente. Nessas transmissões seria viável convidar trabalhadores que foram salvos pelo exercício da denúncia a relatarem sua experiência, a fim de desmistificar e superar o receio de denunciar que muitas pessoas têm.