O trabalho escravo no Brasil contemporâneo

Enviada em 05/08/2024

Na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago utiliza uma alegoria para revelar as fragilidades das estruturas sociais e institucionais, frente a proble-mas que perpetuam a desigualdade e a desumanidade. De maneira semelhante, o trabalho escravo no Brasil ilustra a vulnerabilidade do sistema, especialmente em relação às classes desfavorecidas. Dessarte, faz-se profícuo analisar não só a rela- ção causal entre disparidade social e condições de trabalho degradantes, mas tam- bém, a principal consequência do impasse na contemporaneidade.

É mister ressaltar, em primeira instância, que a desigualdade social é um dos principais entraves para erradicar situações de trabalho análogas à escravidão no país. Isso ocorre porque, em locais com vulnerabilidade social extrema, além do fator de carência econômica, que desencadeia a escassez de alimentos e utensílios básicos, a falta de instrução sobre segurança trabalhista cria um ambiente propício à exploração. Conforme pesquisas da Universidade de São Paulo, 64% dos indiví- duos que são explorados estão na base da pirâmide social. Sob essa perspectiva, é nítido que pessoas mais pobres são alvos fáceis de empregadores inescrupulosos.

Por conseguinte, as jornadas exaustivas de trabalho comprometem a saúde psí-quica e física do trabalhador. Isso se deve ao fato de que, muitas vezes, a expo- sição prolongada ao labor compromete atividades inerentes ao bom condicio- namento humano, em outras palavras, há a privação do lazer, convivência fami- liar, alimentação regular e prática de atividades físicas. Paralelamente, o indivíduo perde sua função social e passa a se comportar como uma máquina. A título de exemplo, o médico Drauzio Varella aponta o burnout — uma síndrome resultante do estresse crônico no trabalho — como uma barreira para a liberdade pessoal.

Diante do exposto, acerca do trabalho escravo no país, é evidente que medidas devem ser tomadas. Logo, o Estado, responsável pelo bem-estar social, deve criar um programa estratégico nacional de combate a serviços laborais com cargas exa-ustivas, com a realocação de 8% do Produto Interno Bruto, para a contratação de profissionais capacitados que deverão estudar áreas propensas à exploração. Pos- teriormente, esses profissionais encaminharão fiscalizadores para averiguar a situ- ação. Desse modo, será possível libertar-se da “cegueira” que assola a sociedade.