O uso da Cannabis medicinal no Brasil

Enviada em 07/09/2022

Perante um cenário tortuoso, é sensato recorrer à ficção como estratégia de fuga da realidade. Não por menos, o tomo “Utopia”, escrito em 1516 por Thomas More, destaca-se como um refúgio para o cenário brasileiro vigente. Na obra, More discorre sobre uma sociedade ideal em que inexistem conflitos e desequilíbrios so - ciais. Externo à literatura, nota-se uma distância além da temporal, uma vez que a ausência de debates acerca do uso da Cannabis medicinal enseja uma realidade inóspita. Ainda, cabe ressaltar que esse infortúnio é calcado na morosidade do Estado e tem como consequência o conservadorismo.

De início, há de se constatar a negligência estatal como mantedora desse revés. Segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, configura-se no Brasil uma Cidadania de Papel, isto é, ainda que o país detenha um sólido conjunto de leis, elas se atêm, de forma geral, ao plano teórico. Nessa perspectiva, nota-se um cenário caracterizado pela inércia governamental, de modo que os investimentos em estudos e divulga - ção dos benefícios medicinais da Cannabis são irrisórios, indicando que a omissão governamental contribui para a conjuntura vigente.

Por conseguinte, engendra-se o conservadorismo. Segundo o filósofo Michel Foucault, a sociedade tende a considerar como tabus assuntos que causem des -conforto. Nesse sentido, a escassez de debates acerca da Cannabis medicinal fo -menta a manutenção de um caráter conservador que não reconhece os benefícios do canabidiol como medicamento. Isso ocorre porque a nação falha em mensurar as consequências dessa mentalidade, como a possibilidade de uma terapia medi - camentosa menos agressiva para insônia, depressão, ansiedade ou até mesmo traumas musculares.

Destarte, intervenções são necessárias para emancipar o povo desse óbice. Para tanto, cabe ao Poder Executivo, órgão supremo administrador da nação, o dever de criar oficinas públicas, objetivando coletar dados e elencar as lacunas na atuação do Estado. Feito isso, ainda que não haja resolução imediata para o con - servadorismo, é possível mitigar a inobservância estatal, de tal maneira que a po - pulação usufruirá de tais avanços e a “Utopia” de More deixará de se ater apenas ao plano artístico.