O uso de agrotóxicos no Brasil e no mundo
Enviada em 30/10/2018
“O progresso roda constantemente sobre duas engrenagens. Faz andar uma coisa sempre esmagando alguém”. A assertiva do escritor Vitor Hugo refere-se aos impactos ocasionados pelo avanço desmedido da sociedade. De modo análogo, o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira ganhou palco de discussão nos meios de comunicação do Brasil e do mundo, sobretudo após as recentes propostas legislativas que buscam flexibilizar a regulação desses defensivos agrícolas. Destarte, mostra-se relevante compreender os amplos debates quanto ao uso do veneno e suas consequências socioambientais.
Em primeira análise, vale ressaltar que o uso intensivo de agrotóxicos iniciou após a Segunda Guerra Mundial, onde as indústrias químicas fabricantes de venenos usados como armas químicas ganharam grandes impulsos ao encontrar na agricultura um novo mercado para o controle de pragas e doenças nas culturas. Por outro lado, no Brasil, esse cenário se solidificou com a consolidação de uma economia agroexportadora e o estímulo ao crédito agrícola associado às novas tecnologias. Atualmente, segundo o Dossiê Abrasco, o uso de pesticidas cresce exponencialmente no país e, atrelado a esse fato, está em pauta no Congresso Nacional a proposta para substituir a legislação vigente e facilitar a produção, importação e registro e comércio de agrotóxicos no Brasil. A despeito disso, Organização das Nações Unidas repreendeu o governo brasileiro pelas violações aos direitos humanos decorrentes das mudanças propostas pela “PL do Veneno”, conforme foi apelidada.
Outrossim, é importante destacar os impactos socioambientais decorrentes do uso incomensurável de defensivos agrícolas. Desse modo, de acordo com o Observatório Nacional, nos últimos anos o Brasil obteve quase 115 mil registros de intoxicações causadas por agrotóxicos, fato evidenciado após o incidente ocorrido durante a aplicação aérea do agrotóxico no interior do estado de Goiás, o que provocou a contaminação de cerca de 90 pessoas. Por conseguinte, tal conjuntura discorda da fala de Paul Atson, que diz: “A inteligência é a habilidade das espécies para viver em harmonia com o meio ambiente”, o uso do veneno, portanto, tem um preço alto para a saúde e o ecossistema regional.
Diante do que foi exposto, o poder público e a sociedade devem engendrar ações a fim de conter o uso em larga escala de agrotóxicos. Para que isso ocorra, o Ministério da Saúde deve informar a população através de campanhas de abrangência nacional dos impactos à saúde e ao ambiente relacionado aos pesticidas, de modo que essa possa se mobilizar em relação às questões políticas. Ademais, deve a Anvisa incentivar o uso mais racional dos agrotóxicos e apresentar alternativas, tal qual a agroecologia, como ferramenta de gestão ambiental e desenvolvimento sustentável na agricultura, além de reforçar a fiscalização de alimentos em que não fosse permitido nenhum resíduo tóxico.