O uso de agrotóxicos no Brasil e no mundo
Enviada em 24/08/2019
Circe, de acordo com a mitologia grega, era uma feiticeira que tentou enganar Ulisses com venenos servidos em taças. De maneira semelhante, o consumo de agrotóxicos, tidos como verdadeiros venenos, perfaz um grave problema no Brasil, pela possibilidade direta de chegar às mesas da população. Produto de utilização indiscriminada e ineficiência governamental em sua regulamentação, nesse sentido, o uso de agrotóxicos evidencia a necessidade de maior controle pelo risco potencial que representam à saúde de humana e ao meio ambiente.
É importante destacar, a princípio, que a utilização de defensivos agrícolas ampliou-se a partir da Revolução Verde, de 1950, na qual o Brasil se projetou como “o celeiro do mundo”. Por conseguinte, hoje o país é o maior consumidor de agrotóxicos, segundo a FAO – órgão das Nações Unidas para Agricultura, utilizando-os ostensivamente na agricultura como forma de impulsionar a produção e, assim, seus ganhos econômicos. Entretanto, seu uso deliberado constitui sério risco à saúde humana e ambiental, tanto pelo potencial carcinogênico, quanto pela contaminação de lençóis freáticos e redução de biodiversidade, levantando, dessa maneira, o pensamento de Schopenhauer, que afirma ser um grande erro humano sacrificar saúde por qualquer outra vantagem.
Por outro lado, não se percebem ações governamentais que visem ao controle do uso de defensivos agrícolas na produção de alimentos. Pelo contrário, o agronegócio, responsável direto pelo setor, estabelece-se fortemente como base da economia do país, com importante força política e representativa, influenciando políticas públicas e tomadas de decisão. Como exemplo desse fato, tem-se a liberação de 262 novos agrotóxicos, somente em 2019, de acordo com levantamento do Portal G1, metade de uso proibido em países desenvolvidos. Portanto, ao usar de seu poder político econômico para benefício próprio em detrimento da saúde pública, o agronegócio reproduz as perversidades sociais do Brasil, em uma cadeia que só beneficia o mais forte.
É fundamental, portanto, o financiamento de pesquisas com uso de novos vetores, biorreguladores e recombinação genética, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA, em associação com pesquisadores de universidades públicas, que visem a substituição progressiva de agrotóxicos, fornecendo alternativas viáveis para o campo. Bem como, o estabelecimento de campanhas de boicote, pela mídia e sociedade civil, contra a comercialização de alimentos e empresas que se utilizem de agrotóxicos, a fim de que haja maior controle e incentivo a práticas mais sustentáveis de produção, fornecendo um mínimo de segurança. Para que não se caia no conto de Circe, enganados com venenos postos às nossas mesas.