O uso de agrotóxicos no Brasil e no mundo
Enviada em 17/09/2019
No Brasil, em decorrência da falta de criticidade de muitos cidadãos, tornou-se corriqueira a compreensão de que o uso de agrotóxicos não afeta a dinâmica atual. No entanto, embora essa perspectiva permaneça no senso comum, naturalizando esse modo de pensar, é preciso notar o quanto esse ponto de vista é ingênuo ao possibilitar que o indivíduo se isente da culpa e aponte culpados.
A busca por lucros a qualquer custo pode afetar a saúde pública. A flexibilização do emprego de químicos na lavra pode afetar o direito à dignidade de agricultores e consumidores. Uma das maiores consequências é a alteração de ecossistemas, com a morte de abelhas e outros insetos. Esses entendimentos sobre utilização de defensivos agrícolas, mesmo que simplistas, tendem a ressaltar fatores como esses produtos serem a terceira maior causa de intoxicação, segundo o Ministério da Saúde. Em geral, quando a sociedade não se predispõe a assumir posturas críticas e sensatas, toda a atualização de valores fica propensa a exaltar padrões de conduta nocivos e desvirtuados que banalizam tal problema. Como se não bastasse, há de se atentar, também, à forma perniciosa como diversos segmentos sociais se comportam diante desse assunto, ao subestimar dados da Fiocruz, que indicam que 25% dos envenenamentos ocorrem em crianças.
Por conta disso, no debate acerca do uso de químicos na agricultura, é preciso enfatizar a urgência do investimento em um maior senso de corresponsabilidade coletiva. Dessarte, em consonância com as ideias da Teoria da Coesão Social, de Durkheim, e do poeta John Donne, não se deve perguntar por quem dobram os sinos, deve-se notar que dobram por todos. Desse modo, é possível evitar a proliferação de posturas meramente acusatórias que, além de desprezarem a atuação pouco eficaz ou inexistente de agentes públicos, também agenciam o aborto de sonhos e o assassinato de esperanças, ao passo que, diversos insumos agrícolas apresentam mais resíduos desses tóxicos do que o permitido, segundo a ANVISA, o que afeta a vitalidade do cidadão. Sob essa égide, mais do que se eximir da culpa para apontar culpados, os brasileiros devem atentar-se ao seu poder de ingerência.
Sem dúvidas, quando restrita a fatores inoportunos, qualquer iniciativa contra o uso excessivo de agrotóxicos está fadada ao insucesso. Portanto, faz-se necessário que o Estado, por meio da parceria entre os Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e das Ciências e Tecnologia, garanta leis que certifiquem a fiscalização e a utilização adequadas desses produtos, ao assegurar pesquisas que indiquem mais precisamente as consequências desses químicos para a população e para a natureza e as doses suficientes para seu resultado ideal, permitindo o seu emprego apenas de forma consciente e dentro dos limites aceitáveis para não colocar nenhuma espécie em risco, direta ou indiretamente. Afinal, parafraseando o filósofo grego Heráclito, a mudança deve ser o princípio fundamental de tudo.