O uso de agrotóxicos no Brasil e no mundo
Enviada em 29/09/2020
Na obra infantil “Branca de Neve”, a rainha má pretende matar a protagonista com uma maçã envenenada, que ao ser levantada do caldeirão forma a imagem de uma caveira. Sob essa lógica de ficção, percebe-se que a realidade tratada no desenho não se afasta muito do atual contexto agrícola brasileiro, em que os agrotóxicos fazem o papel do veneno da rainha má. A partir desse viés é válido discutir as consequências do uso de agrotóxicos e como no Brasil há uma tendência de aumento do uso desses mesmo diante de tantos malefícios.
De início, é importante entender que os agrotóxicos são produtos químicos utilizados para evitar pragas e consequentes prejuízos em plantações, porém, o seu uso traz desvantagens para a saúde do trabalhador que o aplica, como também para o consumidor. Isso ocorre devido ao uso inadequado dos defensivos agrícolas, pois há o desrespeito às normas de segurança do trabalho e os trabalhadores rurais são expostos aos vapores de pesticidas, todos os dias, sem a capacitação necessária sendo vítimas de casos de câncer e intoxicação. Para afirmar tal conjuntura a OMS (Organização Mundial da Saúde) emite relatórios que quantificam o número de intoxicações no Brasil por exposição a agrotóxicos, configurando mais de 80 mil por ano.
Convém pontuar ainda, que o Brasil, diferentemente do resto do mundo, vem sustentando uma política de flexibilização no uso de praguicidas, havendo um desmonte da legislação para a redução da taxação de agrotóxicos conforme a periculosidade. Dessa forma, percebe-se que o país vem trilhando um caminho perigoso na tentativa de aumentar lucros no mercado agrícola mundial que vai em contramão, pois de acordo com pesquisas da BBC Brasil, 44% dos princípios ativos liberados no Brasil são proibidos na Europa, EUA, e Canadá. Constata-se assim o diagnóstico do país feito pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda sobre as raízes históricas da nação terem alimentado a ideia de “prosperidade sem custo”, o que se reflete no cultivo da terra por métodos predatórios como os próprios agrotóxicos.
Uma mudança real para esse problemático cenário pode e deve ser feita por meio de ações efetivas do Estado, o qual utilizando-se do Ministério da Saúde -por ter o papel de atuar na elaboração de políticas voltadas à saúde pública- aumente a fiscalização em grandes plantações que utilizam agrotóxicos, isso mediante o envio de agentes sociais capacitados em segurança do trabalho. Faz-se necessário também, que o Ministério da Agricultura siga o exemplo de outras nações e não estimule o legislativo a flexibilizar as regras em relação à entrada de mais defensivos agrícolas no Brasil, e sim a rigidez dessas para não haver prejuízos para a saúde pública a curto e longo prazo.