O uso de veículos de tração animal no Brasil

Enviada em 27/05/2021

Segundo o filósofo italiano Nicolau Maquiavel, “não há nada mais difícil ou perigoso do que tomar a frente na introdução de uma mudança”. De fato, constata-se a inércia da sociedade em relação aos maus-tratos com os animais usados no trabalho de conduzir carroças, charretes e afins. Com efeito, é preciso analisar os entraves que englobam essa problemática, que persiste em virtude da displicência da máquina pública e da ausência de debates produtivos tendentes a solucionar o impasse.

Em primeira análise, é fundamental observar a omissão estatal como fator que influencia no assunto. De acordo com Thomas Hobbes, o Estado é responsável por organizar a sociedade e garantir o bem-estar comum. Contudo, devido à falta de atuação dos escalões de governança, o tratamento degradante a que são submetidos milhares de animais utilizados como propulsores de veículos é um problema que surge no tecido social e impede uma vida digna por significativa parcela dos animais que residem em solo brasileiro. Dessa maneira, a qualidade de vida desses bichos é mitigada e garantias básicas, como as integridades física e psicológica dos bichos, são cerceadas.

Ademais, a escassez de debates produtivos evidencia-se como responsável pela conservação do impasse. Nesse sentido, o filósofo alemão Jürgen Habermas ensina que, por meio dos regimes democráticos da Modernidade, podem-se criar diálogos e participações – sob a lógica da autoanálise – capazes de estabelecer a harmonia entre interesses individuais e coletivos. Nessa perspectiva, é possível afirmar que o silenciamento diante da escravização de animais obrigados a impulsionar veículos emerge como origem da problemática e corrobora sua manutenção. Logo, por dedução analítica, um amplo debate social se impõe com o intuito de atuar nas raízes da questão.

Urge, pois, que medidas estratégicas sejam adotadas no país. Logo, é preciso que as escolas, em parceria com empresas privadas, incentivem rodas de leitura e discussão no ambiente escolar, a partir de obras literárias que abordem as questões relacionadas ao respeito com os animais bem como os efeitos negativos dos maus-tratos a eles. Tais empresas podem fornecer os livros e os próprios professores realizar o processo mediador, elaborando, posteriormente, exposições e mostras culturais que divulguem à comunidade o trabalho realizado. Assim, haverá maior debate acerca do assunto em tela. Por fim, embora dar início a uma mudança de status quo seja difícil (como afirmado pelo renascentista Maquiavel), a sociedade deve olhar para a questão com mais empatia e cuidar de seus animais, sob a perspectiva dos ideiais de uma sociedade livre, justa e solidária.