O uso de veículos de tração animal no Brasil
Enviada em 22/07/2021
A domesticação dos animais foi fundamental para o desenvolvimento da humanidade. Seja na agricultura, seja no transporte, a tração animal tornou possível o tráfego de pessoas e suprimentos em grande quantidade e em um curto espaço de tempo. Porém, do Neolítico à Contemporaneidade a realidade mudou, o uso de carroças tornou-se obsoleto e a atual existência dessa modalidade de veículos reflete problemas sociais. Por isso, o debate sobre o fim da tração animal no Brasil não é apenas por maus tratos, mas também é um olhar sobre a desigualdade.
Nesse contexto, o revés mais visível é a situação de fragilidade que os animais são expostos. Isso porque, de acordo com a ONG Arca Brasil, muitos proprietários de equinos, por exemplo, desrespeitam a fadiga e necessidades dos animais. Além disso, cavalos no meio urbano são pivôs de acidentes, como visto em dados oficiais de Porto Alegre, cidade apelidada de “Capital das Carroças” por ambientalistas. Tal realidade fomentou a criação de entidades e hospitais veterinários em prol dos animais de tração, embora, o Estado permanece alheio a essa questão. Por conseguinte, esse tema público se mantém ignorado por autoridades e remediado por particulares, um nítido cenário de descaso.
Em face disso, é preciso comparar os contextos sociais da população que mantém o uso de veículos movidos a tração animal. Já que, segundo estudos da Universidade Federal do Piauí, os agricultores voltados à subsistência são os principais usuários dessa modalidade de força, seguido por pequenos transportadores autônomos e sucateiros, ou seja, pessoas com baixo poder aquisitivo. Explica-se com isso a questão socioeconômica agregada ao uso de animais, tanto para o arado e afins, quanto para transporte, pois, de fato, é a alternativa possível para aquela realidade. Dessa forma, sem oferecer meios plausíveis de substituir tal prática será impossível extingui-la.
Diante do exposto, o Estado precisa abandonar a postura inoperante e negligente atual. Para que isso ocorra, o Ministério da Infraestrutura, com o apoio de governos estaduais, deve fomentar a substituição do uso de força animal entre os trabalhadores rurais mais pobres, por meio de compras de tratores para uso comunitário, com o intuito de oferecer novas possibilidades a essas pessoas. Somado a isso, os governos estaduais, providos de dados sobre as necessidades da região, devem auxiliar os sucateiros e outros autônomos, por meio políticas públicas, para que também abandonem o uso de tração animal como um meio de trabalho. Com medidas semelhantes, é possível promover um ambiente mais respeitoso tanto para o homem quanto para outros seres vivos.