Objetificação da mulher na publicidade

Enviada em 03/09/2019

Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão da objetificação da mulher na publicidade, é nítida a influência de diversos atores sociais na problematização dessa objetificação. Nesse contexto, é importante não apenas questionar como a persistência da mentalidade machista na publicidade perpetua o conflito de gêneros, mas também analisar seus impactos no organismo social.

Em primeira observação, cabe compreender como o viés machista e sexista de certos ramos publicitários, a exemplo de empresas de cervejas e outros produtos presentes no universo masculino, cataliza a problemática. Observa-se, dessa maneira, a ideia de Bourdieu, na medida em que a presença massiva de grupos patriarcalistas na publicidade, que denigrem e desrespeitam as mulheres, influencia toda a cascata social e suas peculiaridades. Vale ressaltar, também, uma certa acomodação governamental frente à objetificação feminina, não sendo criadas campanhas e movimentos de contestação e combate ao tema, configurando-se como outra instituição que possibilita a existência desse problema, pelo pensamento do sociólogo. É evidente, pois, a necessidade da mobilização governamental na coibição da veiculação do corpo feminino a um objeto nas propagandas no contexto atual.

Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante nesse cenário é como o contexto pós-moderno dificulta o combate a essa objetificação. Nessa ótica, evidencia-se a prerrogativa de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pega cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem a objetificação da mulher como consolidadora do abismo social entre gêneros, possibilitando a crescente heterogeneização entre homens e mulheres no Brasil, por vezes sendo esta perpetuadora de preconceitos e agressões, nos casos mais graves até mesmo de feminicídio. Configura-se como determinante, portanto, a urgência da reestipulação de valores do corpo social, para, assim, torná-los parte ativa no combate à objetificação feminina.

Haja vista as problemáticas decorrentes da objetificação do corpo feminino na publicidade, é mister a implantação de medidas para detê-las. A princípio, é fundamental que o Ministério da Justiça enrijeça o combate a essa prática por meio da criação de um órgão específico que fiscalize e puna propagandas que atrelem a mulher a um conteúdo sexista, coibindo essa prática e, nos casos mais graves, retirando essa propaganda de circulação e aplicando multas para custeio desse órgão. Ademais, cabe ao Ministério da Educação a criação de uma nova diretriz educacional que, desde a primeira infância, discuta a participação de gêneros na sociedade com professores de sociologia e filosofia capacitados, de modo a atenuar os preconceitos e criar um corpo social mais ativo no combate à essa objetificação. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.