Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 30/08/2018
A doação de sangue é fundamental para a execução das mais diversas cirurgias. Quanto mais complexa é a cirurgia, mais essencial é o suporte dado pelos bancos de sangue. Dessa forma, a adequação entre a doação e a demanda de sangue é vital para o paciente e para os serviços de saúde. Infelizmente, o Brasil ainda não conseguiu chegar nesse patamar de consonância.
Segundo a ONU, todo país deve ter de 3 a 5 % de doadores, entretanto, apenas 1,8% da população brasileira é doadora de sangue. Esse baixo percentual tem origem nas regras comportamentais exigidas aos candidatos à doadores. O critério mais controverso é a restrição feita a homens que fazem sexo com homens (HSH). Embora o MS afirme que a orientação sexual não deva ser usada como critério para seleção de doadores, os HSH são recusados para doar sangue nos hemocentros do Brasil. Sendo assim, são reusadas doações potenciais de 10,5 milhões de homens no país que poderiam fazer 4 doações ao ano.
Ao contrário do que pensava o filósofo francês, Louis Bonald, quando afirmava que uma sociedade sem preconceitos é uma sociedade sem escrúpulos, o conceito pré-concebido sobre homens homossexuais e bissexuais prejudicam o exercício de solidariedade de uma parcela significativa da população brasileira. Além disso, a demanda por doação é crescente devido ao aumento da violência e prevalência de doenças crônicas condizentes ao envelhecimento populacional. Apesar desse contexto, o ato de doar ainda não é visto como uma atitude de cidadania, um ato cívico. É preciso ampliar o entendimento da sociedade sobre agir em prol do coletivo assim como desconstruir o conceito de grupo de risco e destituir o estigma da homossexualidade.
Diante da incoerência entre a crescente necessidade de insumos hemoderivados e os obstáculos postos à doação sanguínea, vê-se que as campanhas de incentivo para doadores não se mostram suficientes a fim de garantir a segurança de todos os procedimentos médicos dependentes desses insumos. Para tal, é preciso uma valorização maior das ações cidadãs nos currículos profissionais por parte das empresas. Ademais, é mister que o Ministério da Educação aprimore a interdisciplinaridade na educação entre as ciências sociais e da natureza objetivando esclarecer o conceito de comportamento de risco em vez de grupo de risco e assim, evitar estigmatizar pessoas. Já o Ministério da Saúde precisa aproximar sua prática de sua fala, de forma a não recusar a doação de HSH. Todas essas ações objetivam uma mudança de paradigma que se impõem pela necessidade e dinamismo ineretente às sociedades.