Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 30/08/2018

Transfusões, hemodiálises, cirurgias de grande porte, pacientes oncológicos, são algumas das demandas à utilização de sangue doado. Mesmo com todas essas necessidades e da relativa intensificação para mobilizar e incentivar pessoas à doação sanguínea no país, essa prática é permeada por amplos obstáculos, levando-se em consideração fatores culturais, estruturais e até mesmo humanísticos.

No que se refere aos fatores culturais sabe-se que internacionalmente o brasileiro é conhecido por sua cordialidade, no entanto quando o assunto é doação de sangue a mentalidade de parcela significativa da sociedade é carregada de estigmas e mitos. Imaginário esse que pode estar relacionado ao período da saúde pública, até a década de 80, no qual se remunerava o doador, não gerando assim comprometimento e envolvimento para ajudar no tratamento de quem precisa, sem contar a crença de que doar sangue engorda ou leva a contrair alguma doença infecciosa durante a coleta. Dessa forma, essas concepções podem afetar o número de doadores e dificultar o alcance da meta de 3% da população, estipulada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ademais, os aspectos estruturais e humanísticos são percebidos na medida em que há pouca intensificação das campanhas, ocorrendo principalmente em período carnavalesco ou nos dias 14 de junho (Dia Mundial do Doador de Sangue) e 25 de novembro (Dia do Doador Voluntário de Sangue), além de existir apenas 33 centros para atender 5750 municípios brasileiros. Nesse sentido, a conscientização populacional, bem como o atendimento às demandas nos hemocentros ficam comprometidos,  apesar do Ministério da Saúde (MS) comemorar os 1,6% de doadores no ano de 2018. Além disso, normas discriminatórias como o veto a homens homossexuais, mesmo em relações monogâmicas, impedem que milhares de litros de sangue salvem inúmeras vidas Brasil adentro, impossibilitando ainda o legal exercício da cidadania e do direito à saúde de muitos.

Evidenciam-se, portanto, importantes obstáculos para a doação de sangue no Brasil. Para que se formem doadores com real responsabilidade social, urge a necessidade de melhor esclarecimento e incentivo à concessão sanguínea desde a infância por meio de debates em ambientes comunitários - creches, escolas, universidades, centros comunitários - orientados por profissionais da saúde e educação em comunhão com o MS, além de que a orientação sexual não seja usada como critério de seleção e haja o financiamento de novos hemocentros pelos governos municipais e estaduais, contando ainda com apoio dos mecanismos midiáticos. Assim, aumentariam as chances de melhor adesão social a causa, ampliando o direito à vida e à saúde.