Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 02/09/2018

Consoante o escritor Franz Kafka, “a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”. A doação de sangue, ato solidário e que pode salvar inúmeros indivíduos, configura-se como um exemplo dessa consideração à vida. Contudo, tal gesto vê-se negligenciado pela população e pelas autoridades governamentais, além de apresentar entraves à sua efetivação por determinados grupos sociais. Assim, afeta gravemente os estoques de hemocentros e o consequente tratamento de pacientes, agravando o sistema de saúde pública.

Em primeiro plano, é relevante analisar os fatores que corroboram para a displicência da população no que tange à doação. Situações como a Revolta da Vacina, de 1904, demostram a necessidade da informação e esclarecimento aos indivíduos sobre assuntos relacionados à saúde pública. Dessa maneira, a carência de explicações acerca do processo de doação na atualidade instiga a propagação de mitos e afasta as pessoas de tal gesto, e implica no desabastecimento de centros e hospitais, acarretando na fragilização do tratamento hemoterápico e transfusões de sangue emergenciais.

Concomitantemente à essa dimensão social, encontra-se a questão da impossibilidade de doação por pessoas homoafetivas. A proibição de doações realizadas por homens homossexuais decorre dos surtos de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis durante a década de 80, configurando os “grupos de risco”. Contudo, tal argumento é infundado, tendo em vista que indivíuos heterossexuais também podem estar contaminados com DST’s. Portanto, as triagens para averiguação do sangue de indivíduos possivelmente infectados, independente de sua orientação sexual, deve ser critério suficiente para atestar a qualidade e segurança da doação. Com isso, o quadro de desperdício de potenciais doadores será revertido, culminando no aumento de reservas sanguíneas para tratamentos hemoterápicos.

Impende, portanto, que medidas sejam tomadas para atenuar o crítico cenário que permeia as doações de sangue. Compete ao Ministério da Saúde, em associação com a mídia socialmente engajada,  conscientizar e informar a população por meio da veiculação de peças publicitárias e panfletos que contenham os critérios e grupos para doação, onde podem ser realizadas as doações e a desmistificação de dúvidas mais comuns. Ademais, cabe à Organização Mundial da Saúde aperfeiçoar os exames de verificação de amostras sanguíneas contaminadas, por meio do desenvolvimento de pesquisas científicas em associação com Universidades. Assim, a orientação sexual poderá deixar de ser critério para doação, expandindo os estoques dos hemocentros. Com tais condutas, almeja-se concretizar o sentimento de solidariedade ressaltado por Franz Kafka.