Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 28/08/2018

De acordo com o sociólogo Émilie Durkheim, a sociedade é análoga a um “corpo biológico”, composta por órgãos que interagem entre si. Desse modo, para que esse organismo funcione de forma igualitária e coesa, é necessário que o direito de todos os cidadãos sejam respeitados. Contudo, no Brasil, isso não acontece, pois o processo de doação de sangue ainda enfrenta grandes desafios, tornando-se indispensável a criação de caminhos que combatam esses obstáculos. Nesse contexto, dois aspectos fazem-se relevantes: preconceito e estigma.

É indubitável que a doação de sangue é um procedimento envolto de extremo preconceito. De acordo com o IBGE, dos 100 milhões de homens que compõem a população total do país, pouco mais de 10 milhões são homo ou bissexuais. Esse dado evidencia como um grupo em grande potencial para doação é privado de realizar o procedimento, em função de portarias do Ministério da Saúde que os classificam como inaptos temporários, por se relacionarem com alguém do mesmo sexo, abrindo exceção apenas ao cidadão que tiver mantido relação sexual com parceiro há mais de um ano. Dessa forma, o número de doadores voluntários diminui consideravelmente devido à uma opressão simbólica, caracterizada pelo filósofo Pierre Bourdieu como uma agressão que vai além do embate físico, perpetuando-se sobre forma de preconceito a determinado indivíduo ou grupo o qual se encaixa.

É fundamental destacar, além disso, o estigma existente no processo. Isso acontece devido aos mitos existentes, com relação à doação de sangue, disseminados pela sociedade, como a ideia que ao doar uma única vez o cidadão deverá doar mensalmente, o aumento de peso que a doação pode acarretar e a contração de doenças infecciosas durante a coleta. Dessa forma, o crescimento do banco sanguíneo não acontece, conforme o esperado, uma vez que doadores com idade em potencial não não tornam-se voluntários, em função do medo.

Entende-se, portanto, como o processo de doação de sangue no país ainda enfrenta grandes desafios, tornando-se necessários caminhos que combatam essa problemática. A fim de atenuar essa situação, é necessário que o poder Legislativo reformule leis que assegurem ao público LGBT o direito de doar sangue voluntariamente, abordando as vantagens da inserção desse público para o aumento do banco sanguíneo e tomando por base critérios científicos, efetuando análise laboratorial do sangue coletado garantindo sua aptidão para transfusão. Ademais, veículos de comunicação em parceria com o Ministério da saúde deve criar canais de esclarecimento sobre os mitos existentes na doação de sangue, através de cartilhas informativas para download gratuito na internet e a criação de aplicativos em celulares que respondam as principais dúvidas do usuário sobre o processo de doação voluntária.