Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 01/09/2018
No meio do caminho tem uma pedra
É indubitável que diante das grandes questões desoladoras no século XXI, o dilema desafiador da doação de sangue, no Brasil, representa não somente o reflexo de uma sociedade vítima de uma herança cultural, mas também corolário de uma rigidez nas regras. Em memórias póstumas de Brás Cubas, a exemplo, o defunto-autor de Machado de Assis, autor do Realismo, afirma que não teve filhos e por isso não transmitiu a ninguém o legado de nossa miséria. Análogo a essa afirmação, o Brasil sofre com obstáculos frutos de raízes históricas.
Deve-se pontuar de início, que a doação de sangue não é atual. Na década de 80, por exemplo, o Brasil remunerava os doadores, prática que se tornou proibida pela Constituição de 1988. Para Júnia Guimarães Mourão, presidente da Fundação Hemominas, hemocentro coordenador do Estado de Minas Gerais, essa prática levou a sociedade a não se envolver com a necessidade de realizar doações para garantir o tratamento de quem precisa. Assim, 1,8% da população brasileira é doadora de sangue, número abaixo dos 3% que recomenda a OMS- Organização Mundial da Saúde- segundo dados do Ministério da Saúde. Nota-se, então, um dos cernes da questão.
Outrossim, algumas normas e proibições são consideradas entraves para o aumento no número de doadores. No Brasil, homossexuais são proibidos de doar sangue, salvo em um período de abstinência sexual de, no mínimo, doze meses. Segundo Zygmunt Bauman, a falta de solidez nas relações sociais, políticas e econômicas é característica da ‘modernidade líquida’. Diante dessa linha de pensamento, é preciso levar em consideração o risco e não a identidade sexual; por que um homem que tenha um parceiro sexual fixo não pode ser doador sanguíneo? Na América Latina, México, Chile e Uruguai já permitem a doação de sangue por “homens que se relacionaram com homens”. Vê-se, então, a configuração da problemática.
Destarte, o problema apresenta entraves administrativos e históricos. Análoga à terceira lei de Isaac Newton, em que toda ação requer uma reação é necessário que o sistema educacional, comandado pelo Ministério da Educação, instrua os alunos, por meios de palestras, afim de que conheçam a importância da doação, para garantir que elas entendam a necessidade e se disponham a doar sangue regularmente. Nesse ínterim, o governo deve alterar as regras para homossexuais, uma vez que a população masculina pode doar até quatro vezes no ano, abrangendo essa população, o número de doadores aumentará, assim como acontece em países citados acima. Só assim, a pedra de Drummond será retirada do caminho.