Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 03/09/2018

Ainda que a estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) estabelece como ideal que pelo menos 3% da população brasileira seja doadora de sangue, em 2014 apenas 1,8% dos brasileiros adotaram essa prática, conforme o Ministério da Saúde. Nesse sentido, é preciso compreender as razões sociais e culturais as quais levam a falta de adesão dos indivíduos a esse gesto solidário, bem como refletir acerca dos estigmas contidos na sociedade que geram mitos e perpetuam preconceitos quanto a doação de sangue no Brasil, de modo a gerar graves consequências à saúde pública nacional.

Diante dessa perspectiva, é evidente que a falta de uma legítima campanha a favor da doação de sangue no país, assim como a ausência de debates acerca dessa questão nos âmbitos familiar e escolar aprofundam essa problemática. Desse modo, ao passo que é negligenciado o esclarecimento social acerca de tal prática, é nítido o aumento do conservadorismo, ignorância e preconceitos sobre o tema, de maneira a tornarem-se um risco a saúde de pacientes que necessitam de sangue no país, seja por enfermidades crônicas ou acidentes graves. Sendo assim, é possível compreender a formação de uma espécie de “herança cultural”, em que o volume de sangue doado no Brasil reflete a cultura nacional, conforme afirma Júnia Guimarães Mourão, presidente da Fundação Hemominas, do hemocentro coordenador mineiro.

Além do aspecto social que dificulta uma efetiva doação de sangue no Brasil, o reforço de estigmas discriminatórios contra certos grupos de doadores ainda é um problema no país. Nesse viés, após a determinação, pela Anvisa e Ministério da Saúde, da proibição de doação sanguínea por homossexuais que tenham tido relações sexual homoafetiva nos últimos 12 meses anteriores a coleta, diversos debates acerca da homofobia foram levantados no âmbito social. À vista disso, ao contrário de apenas levar em consideração o comportamento de risco, as instituições brasileiras agem com regras discriminatórias e excludentes ao levar em conta apenas a identidade sexual, já que gays com parceiro fixo também não podem doar, conforme ressalta Welton Trindade, ativista LGBT. Sob essa ótica, é irrefutável que os obstáculos para consolidar a doação de sangue no Brasil são reflexos da ignorância social e da permanência de paradigmas discriminatórios, os quais não são combatidos efetivamente pelo Poder Público. Por conseguinte, cabe ao Ministério da Saúde, com o apoio das mídias televisa e cibernética, promover campanhas de engajamento social para esclarecer a população acerca da importância de aderir a tal prática, assim como combater mitos acerca da doação. Ademais, é importante o debate dessa problemática nas escolas entre professores e alunos, a fim de garantir o comprometimento com a saúde pública e a responsabilidade social pelos futuros cidadãos brasileiros.