Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 02/09/2018

A Constituição Federal de 1988 - promulgada no governo de José Sarney - assegura a todos o direito à vida e à saúde. Todavia, os entraves presentes na doação de sangue, revelam que uma parcela significativa dos brasileiros ainda não experimentam esse direito na prática. Assim, é relevante esclarecer que a herança histórica de preconceito aos homossexuais e a falta de informação e conscientização acerca do processo de doação configuram-se como impasses na concessão de sangue no Brasil.

Em primeira análise, a herança histórico-cultural de preconceito constitui a gênese da problemática. Alicerçada em um sistema medieval,  a sociedade brasileira teve sua formação com base na marginalização de homossexuais, fato evidente na Idade Média, quando a Igreja Católica determinava que o único modelo de união afetiva a ser aceito seria aquele composto por um homem e por uma mulher. Em consonância com Pierre Bourdieu sua teoria “Habitus”, a sociedade incorpora e reproduz, ao longo do tempo, estruturas sociais impostas à sua realidade. Nessa perspectiva, os brasileiros naturalizam e difundem essa repulsão aos homossexuais na área da saúde, visto que esses enfrentam limitações no processo de doação sanguínea, pois, com recorrência, o sangue de um gay é visto como impuro e infeccioso. Com efeito, dezoito milhões de sangue são desperdiçados por ano no país, de acordo com a revista “Superinteressante”.

Outrossim, a falta de conhecimento da população acerca do processo e da importância da doação de sangue dificulta a manutenção da saúde no Brasil. A esse respeito, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em “Modernidade Líquida” defende que o Estado perdeu sua função e configura-se como uma “Instituição Zumbi”. A metáfora proposta pelo pensador serve para mostrar que alguns órgãos estatais - como os ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação - são incapazes de desempenhar seu papel e acabam por não conscientizar e informar a população sobre a doação de sangue, o que contribui para que mitos e medos perdurem no país e dificultem tal ato solidário.

Impende, portanto, que o direito à saúde e à vida seja assegurado, de fato, como prevê a Constituição Cidadã. Assim, cabe ao MCTIC em parceria com o MEC, por intermédio de escolas e mídias televisivas, promover campanhas e debates, para todas as esferas populacionais, sobre o processo e a importância da doação de sangue,  com vistas à desconstrução do preconceito e da falta de informação social, de modo a garantir a valorização da vida por meio do incetivo à doação de sangue. Com essas medidas, os obstáculos para a concessão sanguínea serão atenuados e muitos cidadãos deixarão de ter, na prática, seus direitos negligenciados.