Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 23/10/2018
Antes de ingerir uma dose fatal de tranquilizantes, em 1942, o escritor austríaco Stefan Zweig deixou uma declaração na qual agradecia ao Brasil por acolhê-lo tão bem. Exilou-se aqui devido à perseguição nazista na Europa. Bem recebido e impressionado com o potencial da nova casa, Zweig escreveu um ensaio cujo título ecoa frequentemente: “Brasil, país do futuro”. Entretanto, quando se observam os obstáculos para a doação de sangue no Brasil, percebe-se que sua visão não se consolidou. Nesse âmbito, dois aspectos são preponderantes: a restrição temporária à prática aplicada a certos grupos e a falta de incentivos para se doar em períodos fora de campanhas.
Em primeiro lugar, as limitações, não relacionadas às doenças contraídas, impostas a setores da sociedade, só diminui o número de doadores em potencial. Desta forma, a restrição temporária de 12 meses, desde a última relação sexual, aplicada, a partir de 2002, ao grupo denominado pelo Ministério da Saúde como “homens que fazem sexo com homens”, é um problema na medida em que impossibilita muitas pessoas com essa orientação a contribuir para o aumento de sangue nos hemocentros. E, ainda que a legislação tenha avançado no que tange à permissão de gays poderem doar, já no início deste século eles eram vetados, há muito para se chegar ao nível do regras iguais na doação, como acontece na Colômbia, em que não há diferenciação entre heterossexuais e homossexuais, o que ajudaria muito quem precisa das transfusões, sobretudo em épocas escassez.
Além disso, a falta de estímulos desmobiliza aqueles que não são tão altruístas. Sendo assim, pessoas menos engajadas em ajudar ao próximo, por quaisquer que sejam os motivos, não irão se prontificar para ir até os hemocentros doar, o que é um problema principalmente se for levado em consideração que os estoques dos bancos não são constantes, isto é, possuem variações do volume de sangue armazenado, podendo a deixar pessoas em situações graves sem quantidade suficiente para realizar as transfusões. Isso só se agrava pois a Constituição Federal proíbe receber dinheiro em troca da doação, o que leva as instituições de hemoterapia a terem como recorrer apenas á promoção de campanhas quando o nível for crítico.
Destarte, visando superar os obstáculos para a doação de sangue no Brasil, cabe ao MS instituir o fim da diferenciação nas regras a serem cumpridas entre homens heterossexuais e homossexuais, com o intuito de aumentar o número de doadores em potencial e, desta forma, possibilitar maior volume de coleta desse essencial fluido. Ademais, faz-se necessário que as secretarias estaduais de saúde, que gerem os hemocentros, arrecadem fundos para a compra de brindes e refeições que incentivem mais pessoas a doarem, mobilizando, assim, mais pessoas e suprindo uma eventual escassez.