Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 20/03/2019
“Mas ele está aqui comigo, respirando. Não posso fazer isso”. Essa foi a contraposição de uma viúva, no seriado “A Anatomia de Grey”, ao ser solicitada para doar os órgãos de seu marido, vítima de morte encefálica. Infelizmente, na vida real, equívocos a respeito da doação de órgãos são comuns, o que acarreta uma lamentável carência de doadores. Nesse horizonte, os principais obstáculos desse ato de heroísmo são a vasta desinformação e o tabu em torno da morte.
O primeiro fator que interfere na decisão a respeito de se doar os órgãos de um ente é, sem dúvidas, a falta de informação a respeito dessa generosidade. São exemplos disso, a crença equivocada na reversibilidade da morte cerebral, entendida pela ciência como o óbito definitivo e o senso comum de que a promessa de doação implicaria na interferência dos médicos na morte do potencial doador. Esse panorama é, então, responsável por lastimosos dados: consoante a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, em 2016, mais de 3 mil pacientes morreram na espera de doação, pois 41% das famílias recusam-se a fazê-la. O problema é que, caso essa situação consista, ainda mais óbitos evitáveis virão a ocorrer.
Há, ainda, a falta de debate entre a família, pois a morte é um tabu. Isso é preocupante, pois ao ser dada a morte cerebral, o familiar mais próximo será, por lei, o único a decidir o futuro dos órgãos do falecido. Logo, mesmo que alguém tenha, em vida, deixado por escrito a intenção de ser um doador, caso seu familiar, após a morte do parente, negue a doação, ela não será procedida. Em contraste com o Brasil, a Espanha tornou-se o líder mundial de doação de órgãos, após torna-la um componente curricular. Destarte, verifica-se que é possível diminuir amplamente a fila de espera por doação, caso esse ato de heroísmo seja posto em debate.
Urge, portanto, levar em consideração o pensamento do filósofo Augusto: é preciso ver para prever, a fim de prover. O Ministério da Saúde, em parceria com a mídia, deve desmitificar os equívocos no que tange a doação de órgãos, através de campanhas que informem sobre sua importância, a fim de cessar o panorama da desinformação, pois assim, mais famílias iriam se prontificar para seguir com o processo. É preciso, ainda, que as escolas, inspiradas pelas instituições Espanholas, induzam os estudantes a levar o tema em discussão para suas famílias, para assim reverter a visão de tabu.