Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 24/09/2019

No ano de 2011, o Ministério da Saúde aproveitou os filmes de terror lançados na capital paulista para conscientizar os telespectadores a doarem sangue, envolvendo mensagens como: ’’ Quer ver sangue? A Santa Casa de São Paulo também. Doe sangue, doe vida’’.Essa e outras ações governamentais contribuíram para que o Brasil tivesse 1,8% da população como doadora, porém ainda há muito a ser feito, visto que o ideal proposto pela ONU, é que 3 a 5% de uma nação seja doadora. Em vista disso, se faz necessário analisar os fatores que impedem o país de alcançar essa meta internacional, e posteriormente, elaborar políticas públicas que apontem para esse viés.

Em primeiro lugar, é preciso discorrer sobre as leis normativas que regem a doação de sangue no Brasil, e o quanto elas estão dissonantes com o mundo atual, e um desses principais regimentos determina que homens que fazem sexo com homens são considerados inaptos para a doação de sangue por 12 meses após a última relação. E de acordo com os dados do IBGE, com a restrição desse grupo, são desperdiçados mais 18 milhões de litros de sangue por ano, o que leva o país cada vez mais longe de atingir a meta proposta pela ONU. Esses dados revelam uma grande incoerência dessa lei, que mesmo com os avanços científicos sobre a AIDS, continua supondo que esta só pode ser transmitida por relações homossexuais, e já descartam a possibilidade de doação apenas pela identidade sexual da pessoa, sem uma análise prévia que comprove a existência ou não do vírus. Com isso, uma ação de cidadania que salvaria a vida de alguém, converte-se em exclusão.

Outro aspecto a ser abordado, é a prática já extinta, de remuneração aos doadores de sangue como forma de incentivo do governo. Tal ato remonta ao conceito de modernidade líquida proposto pelo sociólogo Zigmunt Bauman, em que no mundo hodierno, até mesmo um simples ato de amor e cidadania ao próximo perdeu seu real valor e se tornou algo comercializável. Além disso, permitir essa prática, acaba por diminuir a qualidade do sangue destinado aos pacientes, já que muitos doadores acabam mentindo e omitindo informações necessárias na entrevista dos hemocentros, prejudicando, assim, a saúde dos receptores.

Diante do exposto, é imprescindível que o Ministério da Saúde reformule os requisitos para a doação de sangue no Brasil, de modo que as entrevistas com o doador não se baseiem em um sua identidade sexual, mas sim em perguntas que possam averiguar se nas relações sexuais houve ou não a utilização de preservativos, independentemente se tenham sido hétero ou homossexuais. Dessa forma, poder-se-á aumentar o número de doadores no país, e assim, exercer um ato de amor voluntário e que compartilha vidas.