Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 05/10/2019
Os progressos científicos e a eclosão da Segunda Guerra Mundial foram fatores determinantes para o surgimento dos primeiros bancos de sangue privados. Destarte, a generalização da transfusão de sangue foi decisiva para salvar a vida de numerosos civis e militares feridos durante o conflito. Alicerçado na contribuição altruísta e não remunerada, o sistema contava, desde os primórdios com a solidariedade e benevolência dos cidadãos. Não obstante, no Brasil a atividade enfrenta diversos obstáculos seja pela falta de conscientização do cidadão, seja pela legislação vigente.
Em primeiro lugar, é perceptível a prevalência de um estigma no que tange à doação de sangue. Consoante ao que Drummond escreveu sobre as dificuldades da vida em seu poema “No meio do caminho”, a dação sanguínea no Brasil ainda encontra muitas barreiras. Tais empecilhos refletem diretamente no número de doadores. Dados pontuados pelo Ministério da Saúde demonstram que a cada mil brasileiros, apenas dezoito são concessores de sangue. Nesse sentido, percebe-se que a falta de conhecimento sobre o processo somada à incompreensão dos encargos de um cidadão consciente se constituem como pedras no caminho da formação de possíveis doadores.
Outrossim, o impedimento da cessão sanguínea pautado na orientação sexual acentua a conjuntura exposta. Consoante ao pensamento de Durkheim, a restrição se configura como um fato social na medida em que gera a perpetuação da discriminação e contesta o respeito à dignidade humana estabelecida pela Constituição de 1988. Logo, tendo em vista que a comunidade LGBT compõe cerca de 10% da população brasileira, destaca-se que a legislação vigente é impeditiva na ampliação do número absoluto de doadores, uma vez que coíbe a contribuição por parte homossexuais que mantiveram relações no período inferior a doze meses.
Portanto, torna-se imprescindível a adoção de políticas mediadoras a fim de contornar essa realidade. Assim, cabe ao Poder Legislativo, por intermédio da reformulação das leis sobre doação de sangue, o descarte de restrições referentes à população LGBT, com garantia do pleno exercício da cidadania de todos os brasileiros. Somado a isto, é dever da mídia e da escola fomentar o interesse dos indivíduos sobre o tema por meio de palestras e campanhas de conscientização. Destarte, o entendimento da doação de sangue como um ato social e contínuo é imprescindível para que se contornem as pedras postas no caminho de um ato tão nobre e significativo.