Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 07/10/2019

‘‘Doe sangue!’’ Esse é um imperativo presente em diversas campanhas do Ministério da Saúde, em determinados feriados, como o carnaval, para contornar os níveis baixos de bolsas de sangue. A situação exposta é necessária porque o sangue é indispensável em diversos procedimentos médicos, como cirurgias de grande porte. Porém, o brasileiro não tem o hábito de doar sangue. Tal problemática está relacionada a aspectos culturais e a centralização desse procedimento.

A priori, a baixa doação de sangue, no Brasil, é cultural. Isso acontece porque não é costume adotar medidas preventivas em vários setores sociais. O que pode resultar em desabastecimento de bolsas de sangue em grandes hospitais, favorecendo complicações clínicas evitáveis. Nesse sentido, é possível relacionar esse comportamento com a caracterização de homem cordial, feita por Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, na qual o brasileiro é emocional, então, pouco técnico, sistemático e preventivo. Essa abordagem sociológica tem conexão com dados do Ministério da Saúde, em que apenas cerca de 2% da população adulta são doadores regulares.

A posteriori, a centralização dos locais para doação de sangue é um obstáculo. Isso ocorre porque apenas capitais ou grandes cidades apresentam estrutura física e técnica (profissionais de saúde, como biomédicos, farmacêuticos e técnicos de laboratório) para realizar a coleta e análises biológicas inerentes a esse procedimento. Tal situação é plenamente incompatível com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), nos quais a descentralização, integralidade, universalidade e regionalização são algumas das metas. Então, o baixo número de instituições para coleta de sangue dificulta o rápido acesso. Nesse contexto, no estado de Sergipe, por exemplo, só há um centro público com essa função e é localizado na capital Aracaju.

Portanto, para superar esses obstáculos, escolas de ensino fundamental podem legitimar um hábito para doação de sangue, por meio de duas semanas de saúde anuais com palestras, jogos e rodas de conversas, para que doar sangue seja culturalmente enraizado como um ato regular e voluntário. Além disso, o Ministério da Saúde pode aproximar a doação de sangue dos usuários do SUS, por meio da construção de pontos de coleta em bairros estratégicos (grandes e médios bairros), para que o acesso seja facilitado, aumentando o número de doadores. Assim, campanhas publicitárias para esse fim serão regulares e planejadas, deixando o caráter imediatista e desesperador.