Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 23/10/2019

Numa sociedade vetusta, eclodia, em 1904, a Revolta da Vacina decorrente da campanha de vacinação obrigatória contra varíola. Tendo como principal causa o receio acerca dos benefícios da imunização, a população -em sua maioria composta por pessoas analfabetas- não queria receber a dose. Persistindo atemporalmente, é notável que casos semelhantes ainda impedem práticas relacionadas à saúde, como a doação de sangue, sejam realizadas no Brasil. Logo, entre os fatores que contribuem para solidificar esse quadro, destacam-se os estigmas sociais bem como a ausência de campanhas de incentivo.

Em primeira análise, embora a Constituição Federal delineie para todos o direito à vida e à saúde, a carência informativa acerca da transfusão de sangue impede o cumprimento desse artigo. De maneira análoga a esse cenário, a série americana Grey’s Anatomy retrata o cotidiano de médicos e residentes no hospital Seattle Grase e, em vários episódios, aborda a importância da doação de sangue nos processos médicos e salvamento de pacientes. Por conseguinte, apesar do ambiente ficcional, a realidade é semelhante à trama e estigmas sociais acerca da transfusão impedem sua ampliação e reflete no baixo índice de doadores. Desse modo, denota-se que concepções deturpadas se apresentam como um empecilho para a concretude do direito à saúde, a exemplo da Revolta da Vacina.

Sob outro ângulo, aliada aos conceitos prévios acerca da hemoterapia, a ausência de campanhas publicitárias informativas corrobora para o desconhecimento da importância de doar sangue. Nesse âmbito, o sociólogo Emile Durkheim afirma que a sociedade pode ser comparada a um “corpo biológico” por ser, assim como esse, composta por partes que interagem entre si. Consequentemente, a letargia midiática em promover projetos de divulgação impede que o número de transfusões cresça, uma vez que tanto a interação dos canais comunicativos e sociais quanto as informações verídicas são negligenciadas.

Destarte, frente a provectos estigmas populares e carência midiática, a doação de sangue no Brasil enfrenta desafios. Portanto, o Ministério da Saúde, como instância máxima dos aspectos administrativos e de manutenção da saúde pública, deve adotar estratégias no tocante à desinformação e baixos índices de transfusão, a fim de aumentar o número de doadores. Essa ação pode ser feita por meio de campanhas de incentivo, como a Semana Nacional de Doação de Sangue. Além disso, é cabível realizar palestras de alcance nacional que informe adequadamente o corpo social sobre o ato de doar sangue. Ademais, assim como em Grey’s Anatomy, a ampliação de transfusões possibilitará o cumprimento do artigo 5° e, por fim, salvará vidas.