Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 26/01/2020
O filme norte-americano “Uma prova de amor” relata a história da adolescente Kate, a qual nasceu com uma doença degenerativa e precisa receber doações de sangue com grande frequência, mas enfrenta barreiras para encontrar doadores compatíveis. Nesse sentido, a narrativa destaca o empenho dos familiares para salvar a vida da garota e expõe a insegurança que ela vive nesse período. Fora da ficção, esse cenário de obstáculos na arrecadação de sangue também está presente no cotidiano brasileiro e tornou-se um sério problema, visto que – seja pela ineficiência estatal, ora pelos mitos que cercam a doação – atrapalha tratamentos hospitalares e aumenta a fila de espera por transfusões sanguíneas.
A princípio, cabe analisar o papel ineficiente do governo sob a visão do filósofo inglês John Locke. Segundo o autor, a sociedade, em seu estado de natureza, possui o direito à vida, à saúde e à liberdade, que devem ser preservados pelo governo. Analogamente, o atual Poder Público contradiz esse pensamento ao promover poucas campanhas de incentivo à doação de sangue, as quais, frequentemente, limitam-se a períodos curtos do ano e não conseguem expandir postos de coleta em locais acessíveis para todas as camadas populares. Por consequência, cada vez mais, os estoques de sangue tornam-se reduzidos, o que faz médicos adiarem cirurgias e interromperem tratamentos clínicos.
Ademais, além da ineficiência estatal, os mitos que envolvem a doação também corroboram na problemática e convém serem contestados sob a perspectiva do sociólogo francês Émile Durkheim. Segundo o autor, o indivíduo só poderá agir na medida em que conhecer o contexto em que está inserido. Dessa forma, o recente âmbito popular dos brasileiros – o qual é cercado por conceitos de que doar sangue provoca a contaminação de doenças ou deixa o corpo com insuficiência sanguínea – facilita que cidadãos conheçam informações distorcidas e comecem a assumir uma posição conservadora. Logo, observa-se uma baixa no índice de doadores pelo país e a superlotação em hospitais com o aumento das filas de espera.
Diante disso, torna-se evidente que medidas devem ser tomadas. Para isso, o governo, por meio de verbas públicas, deve ampliar campanhas de arrecadação pelo país, de modo a oferecer, ao longo de todo o ano, postos de pronto atendimento que promovem a coleta de sangue em locais de fácil e difícil acesso. Dessa maneira, será possível aumentar o número de doadores e preservar a vida de cidadãos que necessitam de transfusões sanguíneas. Além disso, o Ministério da Saúde, em parceria com agências publicitárias, deve combater os mitos dessa temática com a divulgação de artigos científicos nas redes sociais, a fim de informar sobre a segurança do procedimento e impedir que pessoas tenham dificuldades para receber as doações, assim como a jovem Kate no filme “Uma prova de amor”.