Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 23/09/2020
Na obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao instaurar-se, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais. No Brasil atual, de maneira similar ao romance, uma cegueira moral impede que se enxergue a imprescindibilidade da doação de sangue e as consequências de sua falta aos indivíduos em espera. Assim sendo, deve-se pontuar a insuficiência dos investimentos por parte do Estado, bem como a falta de uma consciência coletiva sobre o tema como principais mantenedoras desse cenário deletério.
Primeiramente, é necessário analisar a negligência estatal, a qual impede que a ação humanitária de doação de sangue se concretize no país. Segundo o filósofo iluminista J. J. Rousseau, na medida em que o Estado se exime de sua função de promover o bem comum da sociedade, há a infração do contrato social. Com efeito, essa violação se evidencia nos ínfimos investimentos que são destinados à esfera sanitária. Com isso, diversos são os municípios em que há postos inadequados para a realização do procedimento de doação sanguínea. Desse modo, tal insuficiência do mecanismo governamental não só contribui para o descaso com o corpo social, assim como descumpre um direito fundamentado constitucionalmente: a saúde.
Outrossim, a generalizada rarefação do debate sobre a importância do compartilhamento sanguíneo é uma barreira à dissolução da conjuntura em questão. De acordo com E. Durkheim, os indivíduos só poderão agir na medida em que aprenderem a conhecer os contextos dos quais fazem parte. Dessa forma, no contexto brasileiro, verifica-se que a falta de engajamento da sociedade culmina em um fenômeno no qual a inação em questões como essa predomina. Isso se traduz, por exemplo, na persistência da mentalidade que considera a ação como prejudicial, que causa vício ou ganho de peso.
Portanto, é imprescindível que os empecilhos à doação de sangue no Brasil sejam eliminados. Para isso, o Superministério do Desenvolvimento Regional, como responsável pela infraestrutura nacional, aliado ao Ministério da Saúde, deve instituir postos de doação sanguínea nos municípios em que há a ausência deles e aprimorar estrutural e tecnicamente os que apresentarem condições precárias. Isso deve ser acompanhado da capacitação adequada dos profissionais da saúde e de manutenções periódicas, com o fito de possibilitar a contribuição a toda a população brasileira. Ademais, a mídia, como propulsora de princípios sociais, deve informar pertinentemente a população para que os subsídios necessários ao debate na comunidade existam. Somente assim, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.