Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 11/10/2020

“Drácula”, de Bram Stoker, é a obra que melhor define a idealização do sangue como um elixir da vida no imaginário humano. No livro, baseado no folclore europeu dos Vampiros, o protagonista deve sugar o sangue de suas vítimas para que possa permanecer jovem e com vigor para sempre. De forma análoga à ficção, a doação de sangue no século XXI assume o papel de recuperar e salvar a vida de milhares de pessoas através da transfusão sanguínea. Entretanto, no Brasil, o número de doadores ainda é muito baixo, entrave que acontece não só pelo preconceito ainda existente contra gays na sociedade, mas também pela ineficiência na tomada de medidas por parte do Governo Federal.

É fulcral pontuar, primeiramente, que a lenta mudança de mentalidade do povo brasileiro em relação aos homens homossexuais é um impasse para que a doação de sangue possa, de fato, atingir o número mínimo de 3 doadores regulares por 100 habitantes, índice recomendado pela Organização das Nações Unidas para que cidadãos acidentados, por exemplo, não corram o risco de morrer por falta de estoque. Nesse sentido, a partir da análise de dados do IBGE, conclui-se que aproximadamente 5% dos brasileiros são do sexo masculino e se reconhecem como bi ou homossexuais, um conjunto de indivíduos que, caso pudesse ir à um hemocentro, abasteceria os inventários de bolsas sanguíneas com mais de 18 milhões de litros extras, excedente que certamente salvaria vidas. Assim sendo, percebe-se que a vigente proibição de doação de sangue por homens que mantiveram relações sexuais com o mesmo sexo nos 12 meses anteriores ao procedimento, reflexo da mentalidade atrasada do povo brasileiro e seus legisladores, é lamentável. Logo, é notável o acerto de Sartre, filósofo francês, ao afirmar que a violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.

Além disso, a inobservância por parte do Ministério da Saúde - MS - ao negligenciar campanhas informativas a respeito da segurança de receber sangue oriundo de homens que fazem sexo com homens é outro obstáculo que impede o aumento do número de pessoas comparecendo aos centros de coleta. De acordo com Habermas, incluir não é só trazer para perto, é respeitar e crescer junto com o outro. Dessa forma, conclui-se que o pensamento do filósofo alemão, demonstra que, enquanto o órgão responsável pelo comando da pasta da saúde no Brasil não garantir a isonomia do grupo gay e bi masculino perante a todos os outros cidadãos, o índice de doações jamais será o desejado.

Evidencia-se, portanto, que para que o país do futebol supere o baixo número de doares de sangue, medidas regulamentares precisam ser instituídas. Nesse contexto, o Ministério da Saúde deve elaborar o projeto de lei que garanta o direito de que homens que fazem sexo com homens possam doar sangue sem restrições especiais, apenas respeitando os mesmos critérios de todos os outros voluntários.