Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 16/12/2020

A obra do escritor português José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, publicada em 1995, retrata uma epidemia de cegueira (que não tem origem biológica), a qual faz alusão ao egoísmo e desprezo dos seres humanos. Mais de vinte anos depois, nota-se que o ideal literário está próximo da realidade brasileira, já que ainda há obstáculos na doação de sangue, ora pela omissão do Poder Público, ora pela negligência populacional. Dessa forma, é importante a exigência de mudanças dessa realidade por parte dos cidadãos.

A princípio, vale salientar que o Brasil é conhecido, mundialmente, como um povo alegre, bem receptivo e comunicativo com visitantes estrangeiros. Entretanto, a população do país é menos solidária com os seus semelhantes, pelo menos quando o assunto é doação de sangue. Nesse cenário, segundo o Ministério da Saúde, 66% das doações de sangue no país são espontâneas, isso equivale, em média, a cada mil habitantes apenas dezesseis doam. Desse modo, essa prática evidencia e ratifica a pesquisa realizada pela revista eletrônica Vox Sanguinis de que a religiosidade e o medo são os principais motivos que interferem na decisão dos indivíduos na hora de doar sangue.

Além disso, é importante ressaltar que a transfusão de sangue homóloga (entre espécies iguais) teve resultado positivo no final do século dezoito. Porém, só após a Segunda Guerra Mundial surgiu no Brasil os primeiros Bancos de sangue. Nesse contexto, de acordo com a revista Veja, apenas em maio de 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a restrição que proibia homossexuais de doarem sangue. Dessa maneira, essa realidade enfatiza e confirma o pensamento do filósofo Maquiavel, “Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios”, pois, infelizmente, algumas normas e proibições para a doação de sangue ainda são muito arcaicas.

É notável, portanto, que ainda é muito persistente os obstáculos para doação de sangue no Brasil e medidas devem ser realizadas para amenizar essa problemática. Logo, o Ministério da Saúde, junto com a mídia, deve disponibilizar projetos, trabalhos, debates e campanhas publicitárias esclarecedoras por meio de apoio de profissionais especializados como médicos, psicólogos e enfermeiros para auxiliar e informar a população sobre a importância da doação de sangue a fim de garantir que todas as comunidades sejam contempladas e mais vidas sejam salvas. Ademais, o Governo Federal deve verificar e melhorar as normas para a doação de sangue, por intermédio de leis que assegurem o direito a doação a todas as orientações sexuais, para que assim o estoque nos Bancos de sangue seja ampliado. Nesse sentido, a sociedade resgatará o afeto e a esperança e não será mais “cega” como na obra de José Saramago.