Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 02/12/2020

A descrição da morfologia do sistema circulatório, por William Harvey, em 1628, representa um avanço substancial à medicina. No entanto, a difusão desse conhecimento não foi o suficiente para revogar comorbidades comuns ao sistema hematopoiético, haja vista que a carência da matéria principal, o sangue, é vigente ainda hoje pela escassa quantidade de doações aos bancos de sangue. Nesse contexto, no Brasil, apresentam-se como empecilhos para o estímulo dessa doação não só a secundarização estatal, mas também a promoção cultural preconceituosa incutida ao processo.

É importante ressaltar, a princípio,  que a negligência do Estado acerca da importância de estimular a doação de sangue é nociva. À luz desse panorama, mesmo que a Constituição Federal garanta a todos os cidadãos o direito à vida, juntamente com todos os elementos necessários para sua efetivação, percebe-se que essa premissa é secundarizada.  A principal razão para ponderar tal alegação é que, de acordo com o Ministério da Saúde, para os 26 estados, há, no país, somente 32 hemocentros. Dessa forma, tal conjuntura exclui as populações dos extremos geográficos, como os ribeirinhos, tanto de doar, quanto receber sangue em caso de necessidade, pois o processo é centralizado às grandes metrópoles regionais e nacionais. Por essa ótica, evidencia-se que o poder estatal não cumpre seu papel, pois a prescrição dos direitos na lei não significa, de fato, sua realização.

Em segunda análise, a dificuldade em consolidar a doação sanguínea  se expressa também devido às visões preconceituosas relacionadas ao procedimento. Nesse sentido, Pierre de Bourdieu, sociólogo francês, em sua obra Teoria do Habitus, sustentava a máxima de que a sociedade está propensa a reproduzir ideias ao longo do tempo até que essas passem a dominar seus hábitos. Consoante isso, o ideário errôneo e infundamentado de que o processo de doação de sangue pode propiciar infecções por HIV, por exemplo, é um campo fértil para a disseminação de concepções equivocadas e acima de tudo, para a diminuição do número de doações. Tal fato, além de espantoso, revela que a conotação insensata imbuída ao meio social ao longo dos anos descredita e prejudica a atuação de um processo imprescindível à concretização da saúde.

Portanto, é necessário alçar medidas para fortalecer a doação de sangue no Brasil. Para isso, o Ministério da Saúde, por meio do incentivo à isenção fiscal de empresas privadas, deve recolher recursos para realizar o deslocamento dos grupos sociais até os grandes centros  a fim de possibilitar sua doação. Além disso, esses recursos também devem ser utilizados para a popularização de campanhas publicitárias que esclareçam a atividade. Com isso, futuramente será possível aumentar o número de doações e mitigar as recorrentes dúvidas relacionadas ao ato de ser doador