Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 15/12/2020

A Constituição Federal de 1988, documento jurídico mais importante do país, prevê, em seu artigo 6º, o direito à saúde como inerente a todo cidadão brasileiro. Entretanto, na prática, vários pacientes são privados dos tratamentos de diversas doenças por conta dos estoques insuficientes de sangue nos hemocentros. Assim, diminuir os obstáculos para os doadores e estimular a doação é muito importante para reverter esse problema. Nesse sentido, dois aspectos fazem-se relevantes: políticas públicas e educação.

Desse modo, em uma primeira análise, é preciso ressaltar o desinteresse da maioria da população na doação de sangue. Por exemplo, de acordo com a revista Superinteressante, em 2014 cerca de 98,2% da população brasileira não doou sangue. Isso deve ser revertido, todavia, a falta de locais especializados para a coleta de sangue, principalmente em regiões afastadas dos centros urbanos, implicando na obrigatoriedade de deslocamento dos voluntários para outras cidades ou estados, colabora para a continuidade dessa problemática. Assim sendo, essa conjuntura, segundo o filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do “contrato social”, já que o governo não cumpre sua função de garantir que os cidadãos desfrutem de um direito indispensável.

Ademais, é fundamental apontar que por consequência de uma educação que privilegia, muitas vezes, um ensino com diretrizes capitalista, na qual a remuneração é fundamental para a realização de uma atividade, a ação voluntária é cada vez mais esquecida. Isso é diferente do que acontecia na Idade Média, época na qual o sistema econômico era o feudalismo e o sistema político e administrativo era controlado, muitas vezes, pela Igreja Católica que, por conseguinte, difundia, através da imposição, o ato de doar como benéfico para a população da época. Logo, para resolver o problema da falta de voluntários atualmente, sem a necessidade de uma imposição religiosa como a que aconteceu na europa medieval, é imprescindível alterar a educação voltada mais para o “ter” do que o “ser”, pois, de acordo com o filósofo Immanuel Kant: “O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”.

Enfim, diante dos argumentos supracitados, fica evidente a necessidade de medidas para reverter essa situação. Dessa forma, o Ministério da Saúde deve educar e facilitar o acesso da população aos locais especializados em coletas de sangue, por meio da criação de hemocentros em regiões pobres e afastadas dos centros urbanos e, paralelamente, é imperativo que esses locais, através de campanhas educativas, consigam estimular a doação, a fim de aumentar o estoque de sangue disponível para os pacientes. Dessa maneira, se consolidará uma sociedade em que o Estado cumpre o seu “contrato social”, tal como afirma John Locke.